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Que saudade do centrão (por Felipe Sampaio)

Animados com a frouxidão das Emendas e verbas partidárias, os novos congressistas vão praticar uma espécie de parlamentarismo branco

atualizado 05/10/2022 22:30

Congresso nacional Felipe Menezes/Metrópoles

O Parlamento que tomará posse em 2023 será mais atrasado do que a safra que se encerra. Talvez sintamos saudade do presidencialismo de coalizão, que não saciará o novo padrão mercantil da política.

Ricardo Salles, apesar das boiadas que passou, elegeu-se com o triplo de votos de Marina Silva (no auge da crise climática!). A bancada da educação diminuirá, mas o movimento pró-armas elegeu 23 representantes.

Para que o próximo Presidente sobreviva, terá de governar com um Congresso que, mais do que Legislativo, terá aspirações de co-Executivo. A realpolitik entrou em nova fase.

É capaz de sentirmos saudade do Centrão. Até parlamentares experientes em campanhas eleitorais declaram surpresa com a desinibição do ‘comércio político’ a céu aberto. Animados com a frouxidão das Emendas e verbas partidárias, os novos congressistas vão praticar uma espécie de parlamentarismo branco.

Em outubro o que está em jogo é algo acima da reabilitação de Lula ou do PT. É mais do que o projeto de poder do Partido. Falo de democracia com governabilidade.

A aliança de interesses em torno de Lula precisará ser a mais ampla e diversa desde a campanha das diretas. Será necessário um ‘palanque da democracia’, que segue cambaleante e intermitente.

Lula inegavelmente teve uma vitória respeitável no primeiro turno sob dois pontos de vista. Primeiro, óbvio, porque chegou na frente, com notáveis 48,4%. Segundo, como disse Flávio Dino, porque sua linha de largada era desfavorável (a prisão).

Em comparação, Bolsonaro teve uma derrota significativa também em dois aspectos. O primeiro, também óbvio, porque teve 6 milhões de votos a menos que Lula. O segundo, porque, ao contrário de Lula, seu ponto de partida era vantajoso (o Palácio).

Nesse placar, sobram poucos votos a disputar, o que aumenta a dificuldade de Bolsonaro, que precisa atrair mais eleitores do que Lula até o dia 30 (situação agravada por sua rejeição).

Quanto a Lula e ao PT, é ideal que reconheçam quem (ou o quê) estão representando em outubro. Na verdade, tal compreensão será mais valiosa para governar do que para vencer a eleição.

Porém, seria injusto cobrar apenas ao PT tal responsabilidade, considerando que democracia sequer é um conceito claro no Brasil. Veja a confusão mental do ‘candidato a liberal’ Romeu Zema ao aderir a Bolsonaro (ficar com quem desdenha da democracia, que tem no Liberalismo um pilar fundante).

Com o orçamento secreto e outras boiadas, a inflação chegou ao mercado eleitoral. Essa nova curva de oferta-demanda determinará a relação entre o Executivo e o Legislativo. O governo de Lula tem que começar no palanque de outubro (o de Bolsonaro já está montado).

 

Felipe Sampaio: ex-assessor especial dos ministros da Defesa (2016-2018) e da Segurança Pública (2018); foi secretário-executivo de Segurança Urbana do Recife.

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