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Os gnomos de Zurich (por Paulo Delgado)

O mercado quer “limpar” a área, adaptar-se logo ao novo governo, e como está demorando fala em desajustamento

atualizado 24/11/2022 0:59

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Não é confirmado que milionários banqueiros suíços se reúnem debaixo da terra para tirar cada vez mais proveito da crise da economia mundial. Os Gnomos de Zurich – como os apelidou o Ministro da Economia e Primeiro Ministro Trabalhista Inglês Harold Wilson, por operarem contra a Libra Esterlina nos anos 1970 – podem ser uma ficção, mas a má fama do audacioso sistema financeiro internacional não é segredo de conto de fadas.

Chafurdar no mistério do mercado financeiro não é para qualquer um, nem possível com abstração. O problema é que a variedade de vezes que a expressão aparece em qualquer discussão econômica a tornou a característica mais saliente de nossa época. Como se fosse ruim a autoridade do Estado ser inteligente. E a inteligência fora da vida privada não existisse na condução dos negócios públicos.

A economia praticada pela Fazenda que termina usava o termo liberal como um ritual de certificação, não realidade. Um praticante do liberalismo ambíguo brasileiro:  defesa burocrática de princípios e defesa prática de interesses.

Embora exista reciprocidade entre o belo do ideal defendido pelo mercado e o belo da experiência defendido pelo governo a crítica econômica é um desastre.  Agora, convenhamos, a beleza suavizante da experiência é mais promissora do que o absoluto indivisível do ideal.

O antagonismo da discussão se dá porque se o novo governo diz que o mercado fala em perseguição e o sistema financeiro reage dizendo que é atraso.

O mercado quer “limpar” a área, adaptar-se logo ao novo governo, e como está demorando fala em desajustamento. É um problema de convivência, desvio de expectativa.

Normalmente, usar a noção de atraso cultural para quem critica o mercado é uma forma de se aliar aos grupos de interesse. O governo, se não quer ser o mercado, é mais sincero.

Liberais tardios querem que o governo corresponda aos fatos nos quais eles estão encaixados.  São incomodados com mudança de titulares sem tradição para o diálogo fiscal. Gostam de governos nus, governos de países atrasados. Nos EUA é diferente. O mercado acredita na ancoragem feita pelo FED e só percebe que está nadando sem roupa quando a maré da ilusão se esgota.

A história econômica brasileira é cumulativa, não é criação de uma única pessoa ou governo.  Liberais confusos não vêm patologia na marginalização social pois a pobreza não atrapalha seus negócios. Não deveriam levantar objeções a governos que vêm patologia em negócios que provocam miséria.

Sejamos sinceros: quem não tem espaço para fazer barbaridades, a noção forte que o mercado tem do governo, ou a noção fraca que o governo tem do mercado?

 

PAULO DELGADO é Sociólogo e Consultor. contato@paulodelgado.com.br