O carro na estrada (por Gaudêncio Torquato)

Bolsonaro planeja reforma ministerial com a troca de até dez ministros

atualizado 20/06/2021 1:21

Esplanada dos Ministérios Rafaela Felicciano/Metrópoles

O noticiário começa a informar uma ampla reforma ministerial com a troca de até dez ministros. Motivo? Escalar um time de tom substancialmente político para responder às demandas partidárias e construir a fortaleza do candidato Jair Bolsonaro de olho em outubro de 2022.

Dois, três ou quatro não dariam muito na vista, mas dez? A primeira leitura é a de que a gestão federal não tem sido eficiente. Só se troca jogador se estiver contundido ou pela tática do técnico. Parece ser essa a intenção do técnico Jair para enfrentar seu quarto ano de governo.

Como insisto em lembrar, a vida de uma administração se assemelha a um carro de quatro marchas. Cada ano corresponde a uma marcha. A primeira dá o empuxo na largada. E o governante promete inovar, renovar, combater as mazelas a partir da corrupção e da cultura franciscana – é dando que se recebe.

Na segunda marcha, o carro avança com mais velocidade. Os governantes começam a imprimir sua marca, depois de um enxugamento inicial. Casa em ordem, a lógica é implantar ideias novas e avançar. Mas, desde o início, o atual mandatário federal acentuou um viés eleitoreiro, com um palavreado esdrúxulo e debochado.

A terceira marcha é a decolagem, com o carro andando solto. Aí a administração deve realizar uma bateria de obras. Ocorre que o terceiro ano também se apresenta como ciclo de ajustes políticos, do toma lá dá cá do presidencialismo de coalizão, quando os partidos governistas sinalizam sua vontade de participar da administração e votam as pautas do Executivo.

Na quarta marcha, o carro, muito veloz, arrisca ultrapassagens, queima etapas e faz as correções para alargar a avenida eleitoral. Ocorrerá no segundo semestre de 2021. Mas o Senhor Imponderável sempre aparece com obstáculos, que se materializaram no vírus e suas variantes, matando quase 500 mil pessoas.

A pandemia destrói parcela da imagem dos mandatários, principalmente a do chefe do Estado. São profundas as marcas deixadas: drogas sem eficácia para combater o vírus, falta de oxigênio em Manaus, desleixo, demora na aquisição de vacinas, má gestão da crise. Como atenuar isso até a eleição? Vacinas em abundância e dinheiro no bolso das famílias.

Portanto, veremos nos próximos tempos a busca de meios e instrumentos para atrair as massas aos cercados dos candidatos. Cada qual se esforçará para formar uma identidade/imagem e fixá-la na cabeça e no coração dos eleitores: a do despachante, que atende os pedidos da sociedade; a do juiz, distribuindo justiça para todos; a do salvador de náufragos e sua tábua de salvação; a de São Jorge degolando os dragões da maldade; o enviado por Deus para limpar as impurezas; o obreiro faraônico prometendo grandes obras; o populista abraçando multidões; a de César, imperador romano, rodeado de áulicos, recebendo aplausos e dizendo mentiras.

Alguns recontarão suas histórias, passando uma borracha nos radicalismos; e outros farão o contrário a fim de criar reservas de ódio no coração dos adeptos. E todos, sem exceção, tentarão mostrar que o Brasil será um céu. Bastando que o eleitorado ajude o motorista a empurrar o carro na reta final.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

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