No pôquer político, governo não paga prá ver (por João Bosco Rabello)

A verdade é que Bolsonaro e o governo não sabem se a conversa narrada pelo deputado Luís Miranda foi gravada

atualizado 29/06/2021 4:03

Dmitry Feoktistov\TASS via Getty Images

Pelo menos no âmbito do ministério da Saúde o presidente Jair Bolsonaro sabia o que se passava. Afinal, foi o ministro de fato, a intervir na gestão diária da pasta, demitindo dois titulares por não defenderem a cloroquina contra a pandemia e mantendo sob rédea curta um terceiro que obedecia por saber quem mandava.

Por isso, não cabe a simplória explicação que passou a dar desde ontem de que não pode saber tudo o que se passa no governo. Bolsonaro assinou a correspondência ao governo indiano respaldando a compra da Covaxin. Se àquela altura desconhecesse irregularidades na compra da vacina, delas foi alertado depois por um deputado federal da base aliada – e nada fez.

A verdade é que Bolsonaro e o governo não sabem se a conversa narrada pelo deputado Luís Miranda foi gravada. O presidente admite a conversa, não confirma a versão do interlocutor, mas não a desmente. Num pôquer de profissionais, o governo prefere não pagar pra ver e fica refém da versão que o condena.

Bolsonaro não arriscou. Indício claro de que o conteúdo é comprometedor. Mudou o tom de estudada indignação e adotou o papel de vítima da máquina burocrática fora de controle. É uma mudança e tanto principalmente quando gestada em um governo extraordinariamente centralizador, que controla até propaganda institucional.

Como o caso não oferece mais que sim ou não como alternativas, a demora do presidente em confirmar ou desmentir seu interlocutor gerou uma notícia-crime contra ele junto ao Supremo Tribunal Federal por prevaricação – quando a autoridade pública deixa de comunicar fato grave do qual toma conhecimento. Negacionismo de novo não é opção.

Seja qual for a motivação dos irmãos Miranda – o deputado e o servidor da Saúde -, que o governo tenta desqualificar, o governo e o seu líder na Câmara, deputado Ricardo Barros, estão em maus lençóis. As primeiras reações de ambos só pioraram a situação.

Barros já deveria ter sido destituído da liderança depois da versão não desmentida de que Bolsonaro atribuiu a ele o “rolo” na compra viciada da Covaxin. Permanece líder mesmo se sabendo reincidente em episódio do gênero. Quando ministro da Saúde foi acusado de favorecer a empresa Global, hoje sócia da Precisa – intermediária da compra da Covaxin.

Barros parece aquele tipo de perfil que dobra a aposta quando acuado. Processado por improbidade quando ministro da Saúde, não faz um mês disse que “vai chegar a hora em que decisões da Justiça não serão mais obedecidas”.

O tempo conspira contra o governo. Ou o Planalto encontra uma versão que se ajuste aos fatos ou será atropelado por estes. Até aqui apresentou reações de menino flagrado em travessura. E põe travessura nisso.

 

João Bosco Rabello escreve no Capital Político. Ele é jornalista há 40 anos, iniciou sua carreira no extinto Diário de Notícias (RJ), em 1974. Em 1977, transferiu-se para Brasília. Entre 1984 e 1988, foi repórter e coordenador de Política de O Globo, e, em 1989, repórter especial do Jornal do Brasil. Participou de coberturas históricas, como a eleição e morte de Tancredo Neves e a Assembleia Nacional Constituinte. De 1990 a 2013 dirigiu a sucursal de O Estado de S. Paulo, em Brasília. Recentemente, foi assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública

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