Na toadas das reformas (por Antônio Carlos de Medeiros)

É bem-vinda a percepção de reformas. O que ainda está embaçada é a percepção da intensidade da reconstrução

atualizado 07/01/2022 12:20

Igo Estrela/Metrópoles

Nesta abertura de 2022, o tempo político continua acelerado, mesmo na calmaria dos recessos do Judiciário e do Legislativo. As candidaturas presidenciais vão se colocando cada vez mais na vitrine e são levadas a dizer a que vieram. É aí que já se pode perceber um ligeiro denominador comum. Todas elas, em maior ou menor grau, se contrapõem ao governo Bolsonaro. E entram na toada da necessidade de reformas no Brasil, com variações de tons e ênfases, seja com o rótulo da social democracia, seja com o rótulo liberal.

Está em formação uma percepção de reforma e reconstrução do país, com diferentes intensidades. Já se reconhece a supremacia das pautas da miséria, da pobreza e das desigualdades. Já, até, procura-se passar ao largo da velha e anacrônica dicotomia entre Estado Maior “versus” Estado Menor. Sendo reconhecido o papel do Estado nas questões sociais e no estímulo aos investimentos. Com o andar da carruagem, o tempo nos dirá se são apenas nuances e onde estão as diferenças para o eleitor poder fazer as suas escolhas.

Mas é bem-vinda a percepção de reformas. O que ainda está embaçada é a percepção da intensidade da reconstrução. Pois que está cada vez mais patente que o regime da Nova República se esgotou e que é preciso caminhar para a restauração do Estado e para a repactuação do contrato social. Rubens Ricupero sintetizou bem: “A imensa maioria dos congressistas pratica o patrimonialismo e isso vai tornar o sistema inviável. Ou se autorreforma ou será destruído”.

Pois bem. A tarefa de autorreforma e restauração exige capacidade política convocatória de mobilização e aglutinação. É aqui nesse ponto estrutural que as candidaturas presidenciais vão ter que mostrar a que vieram. O desafio maior é o de impulsionar energia social e forjar um novo consenso no Brasil. Superar o quadro de polarização que divide o país e que aprofunda a regressão civilizatória, estagnação econômica, miséria, fome e pobreza. Quem vai, e como vai, ser capaz de articular um novo consenso? Esse é o nome do jogo.

A porta de saída requer ajustes no pensamento econômico e no contrato social da sociedade. Exigirá o reequilíbrio das políticas fiscal e monetária, para olhar tanto para a população quanto para a economia. Com capacidade política para reestruturar gastos e pactuar nova política de investimentos públicos e privados. Mexer no vespeiro do conflito distributivo.

Na essência, a emergência de novos problemas, novos conflitos e novas pressões sociais ampliou os eixos de clivagens.  Às tradicionais clivagens sociais e regionais somaram-se clivagens identitárias, culturais e religiosas. Agora, além da questão fiscal, são cruciais as questões das desigualdades, das mudanças climáticas, da pobreza e da saúde. Requerem investimentos públicos.

É preciso lidar com mudanças de clivagens e mudanças demográficas (de raça, gênero e gerações). E, aí, vem o entrelaçamento do consenso econômico com o consenso político. A economia política de uma nova agenda. Nos anos FHC e Lula, o Brasil construiu um raro consenso na política e na economia. Ambos governaram com a formação de coalizões e ambos praticaram políticas de estabilidade econômica e reformas institucionais. Promoveram crescimento com inclusão social e democracia. Agora, teremos energia social para forjar novo consenso?

Antônio Carlos de Medeiros é pós-doutor em ciência política pela The London School of Economics and Political Science.