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Menos, Michelle e Janja (Por Ruth de Aquino)

Não funciona para Bolsonaro reduzir a imensa rejeição feminina. Elas não são bobas

atualizado 13/05/2022 0:00

A primeira dama Michelle Bolsonaro ajeita a gravata do presidente Jair Bolsonaro em cerimônia de comemoração do Dia da Mulher no Palácio do Planalto - Metrópoles Hugo Barreto/Metrópoles

Quando vi Michelle, a robô-propaganda de Jesus e de Bolsonaro, cair de joelhos em prantos na Câmara dos Deputados em seu já conhecido show-drama evangélico e, no domingo, “abraçar as mães do Brasil” e incensar o marido misógino em rede nacional…Quando vi Janja, chamada de “maravilinda empoderada”, beijar Lula “meu amor” na convenção, anunciar que “todo mundo já sabe que a gente vai casar” e cantar, sem voz, o jingle no microfone…Meu sentimento foi: que saudade de Ruth Cardoso.

A função de primeira-dama é complicada, elas não são eleitas. O termo surgiu em meados do século XIX nos EUA. Jackie Kennedy não gostava, dizia que “primeira-dama” parecia nome de cavalo de corrida. Ruth, antropóloga e mulher de Fernando Henrique Cardoso, detestava. Preferia ser chamada do que era: professora. Não escapou do título “Dona”, como todas as mulheres de presidente no Brasil. Sua linha de atuação jamais se confundia com a militância partidária ou com assessores do marido. “Procuro ter uma atuação discreta. Não é uma posição que precise ter muita visibilidade, a não ser na situação mais cerimonial”.

A discrição saiu de moda, foi cancelada. No caso de Janja, um certo comedimento pegaria bem para quem vai casar com o mais provável futuro presidente do Brasil. Janja começou a namorar Lula no ano da morte de Marisa Letícia, 2017. Socióloga com mestrado, petista de carteirinha, Rosângela Silva (Janja), 55 anos, se derrama em declarações apaixonadas a Lula nas redes. Postou um vídeo em que Lula abre a porta do carro para ela em Buenos Aires – e escreveu: “Tem como não amar?”

Menos, Janja, menos. Sei, é fácil se deslumbrar. Mas, pelo seu bem e de Lula, precisa se conter. Lula, 76 anos, está enamorado. Parece ansioso em mostrar juventude e virilidade. Ficou famosa a foto dele de sunga, sensualizando as coxas fortes no Ceará. Até que ponto Lula deve se exibir pelos olhos de seu amor, sambando e bebendo? Poupe seu noivo, Janja. O QR Code para seu matrimônio “privativo” é uma boa ideia. Inspire-se em Ruth. Menos é mais.

Quem bate o recorde de vergonha alheia é Michelle Bolsonaro, 40 anos e mulher há 14 anos do pior presidente que o Brasil já teve, além de amiga do Queiroz. Não acreditei quando vi Michelle sumir embaixo da mesa da Câmara dos Deputados, ajoelhada e em soluços, clamando a Deus e Jesus em culto na casa legislativa de uma república laica. A crítica nada tem a ver com a crença. Cada coisa tem seu lugar. É totalmente fora de propósito essa performance no Congresso. Deveria ser proibida. Entre Aleluias, Michelle pediu o “avivamento” dos Três Poderes.

No domingo das Mães, ficou patética aquela representação com a desconhecida ministra da mulher, um zero à direita. As duas usaram rede nacional de rádio e TV, num número ensaiado para ler com entonação escolar “as conquistas” do governo, em sistema de revezamento. Não funciona para Bolsonaro reduzir a imensa rejeição feminina. Elas não são bobas.

Ruth Cardoso morreu em 2008. Como primeira-dama, era “uma crítica feroz”, dizia FHC, e ele tinha que ouvir, mesmo se não concordasse. Ruth se engajou em movimentos sociais e comunitários, com apoio da sociedade civil e de empresários. Orientava teses de doutorado. Uma vez o jornalista Alberto Dines lhe perguntou, no Roda Viva, se existia machismo na esfera pública. Resposta afiada: “Costumo dizer que os lugares mais machistas são os partidos políticos e os sindicatos”. Xará, muito orgulho.

(Transcrito de O Globo)

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