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Ilhéus, sul de Minas (por André Gustavo Stumpf)

Metade do Brasil está debaixo da água. Acima, só Bolsonaro montado em seu poderoso jet ski 

atualizado 31/12/2021 2:26

Bolsonaro dirige jet ski em SC Reprodução/Facebook

Há várias razões e explicações diversas para o fenômeno. Mas a verdade é que jornais, impressos ou televisivos estão menos informativos. O jornalismo investigativo está em recesso ou fora de moda. Cinzas nas nossas cabeças, como diria o jornalista Mino Carta.

No período de plantão de final de ano, as redações ficam vazias e os problemas se multiplicam. Há dois exemplos recentes emblemáticos: a estranha paralisia da Itapemirim Transportes Aéreos e o anúncio de que um módulo norte-americano penetrou na atmosfera do Sol.

A Itapemirim é empresa tradicional no serviço de transportes rodoviários. Chegou a ser uma das maiores do mundo, rivalizando com norte-americanas como a Greyhound. Foi a maior compradora de pneus do Brasil, fabricante de carrocerias de ônibus, maior concessionário da marca de motores, um gigante em todas as dimensões. Fundada, cevada e desenvolvida pelo empresário Camilo Cola.

Ele morreu e a empresa desandou. Foi assumida por outra pessoa, que, segundo os herdeiros, conseguiu misturar os bens da empresa com os do falecido empresário.

A Ita, aviação, surgiu no momento que a Itapemirim rodoviária está em recuperação judicial. Luta contra o voraz apetite dos credores. Apesar da situação particularmente difícil o novo homem forte, alardeando recursos de fundos árabes (que não chegaram), consegue ultrapassar todos os níveis de credenciamento e autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para começar a voar com seus Airbus 737 amarelos.

Não pagou salários, vantagens, obrigações sociais, seguros, nem o uniforme de seus funcionários e terceirizados. Em determinado momento, antes do Natal, veio a ordem sibilina: ‘tira o crachá, o uniforme e vaza. Saí daí’. Os funcionários deram no pé e deixaram mais de 45 mil passageiros nos aeroportos sem rumo, sem apoio, sem destino.

Algum tempo atrás, o presidente Bolsonaro anunciou na sua tradicional fala das quintas-feiras, com uma miniatura de ônibus da Itapemirim sobre a mesa, que nova empresa de aviação iria surgir nos céus do Brasil. A seu lado, o sorridente ministro Tarcísio Freitas confirmou a novidade. A Ita voou pouco, nada mais de que seis meses.

Foi ao chão com muita rapidez. Não poderia ter sido autorizada, nem aprovada com as suas parcas credenciais e pequeno investimento inicial. As empresas fornecedoras de combustível desconfiaram que algo estava fora da ordem. Só lhe vendiam querosene de aviação a dinheiro.

A empresa provocou prejuízo geral a passageiros, fornecedores, pessoal de terra e aos aeroportos. A exceção de um site, ninguém contou essa história. Com uma conversa bem lubrificada, o empresário conseguiu com seus sete aviões (já devolveu três) fazer algumas viagens, recolher bom dinheiro e acabou sua aventura com promessas mirabolantes. Promete voltar a voar.

Também não foi contada outra história extraordinária, essa internacional. Subitamente, os jornais noticiariam que a Nasa, agência espacial norte-americana, conseguiu colocar uma sonda na atmosfera do Sol. A notícia informava que o artefato tocou o astro rei algumas vezes, desde o início deste ano, a última delas em julho. Mas o fato só foi divulgado agora.

Pode ter sido uma fake news internacional. É possível. Talvez seja nova versão da história do mico leão prateado. Só existe o dourado. O outro nasceu da imaginação delirante de um redator entediado no plantão de final de ano. É pena porque o Sol é a luz da nossa existência, chegar nas suas proximidades, roçar na superfície é algo sensacional, difícil de acreditar por causa da temperatura incomensurável. Mas a tal sonda da NASA desapareceu do noticiário. Sumiu.

O jornalismo imediatista da internet não tem tempo, nem espaço para aprofundar a pesquisa. Limita-se às manchetes. Os jornais repetem as fontes da rede internacional e as televisões colocam seus comentaristas para fazer teorias em torno do que foi noticiado. É aí que mora o perigo.

Outro dia, no noticiário sobre a tragédia das águas neste verão, o âncora da TV chamou o repórter que estaria na Bahia. Ele apareceu em Ribeirão Preto, São Paulo, afirmando que estava perto do avião que levaria víveres para a população de Ilhéus no sul de Minas. Difícil.

Metade do Brasil está debaixo da água. Acima, só Bolsonaro montado em seu poderoso jet ski desfilando nas praias de Santa Catarina. Adolescente em férias. A notícia é sua indiferença em relação à crise baiana. Os argentinos, que gostam da Bahia, ofereceram ajuda. O governador aceitou. O presidente não. O próximo ano, com eleições gerais, será divertido. As consequências sempre vêm depois. Feliz 2022.

 

André Gustavo Stumpf é jornalista e escreve no Capital Político

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