Forças e fraquezas da terceira via (Por Hubert Alquéres)

Falta um discurso capaz de empolgar o eleitorado. Até agora, quem tem um projeto minimamente elaborado é Ciro Gomes

atualizado 27/10/2021 7:12

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A terceira via atravessa uma situação paradoxal. De um lado, setores que foram pilares da candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 – como os empresários e até mesmo os militares – começam a apostar em uma alternativa na próxima disputa presidencial que evite a polarização de 2018. Conta a seu favor a existência de uma grande faixa do eleitorado refratário às candidaturas de Lula e Bolsonaro. Suas chances são diretamente proporcionais à deterioração da popularidade do presidente, hipótese plausível face o risco do país ingressar em um quadro de estagflação no curto prazo.

Nuvens de chumbo se anunciam para 2022. O desempenho do PIB vem sendo revisado para próximo de zero (ou negativo), enquanto já está contratada uma forte alta da taxa de juros, provavelmente superior a 11% ao ano. A inflação continuará a ser um grande problema, sobretudo para os mais pobres, com tendência do desemprego voltar a crescer.

Tudo isso como resultante do descompromisso do governo com a responsabilidade fiscal, sinalizado pela sua intenção de furar o teto dos gastos para viabilizar o Auxílio Brasil, ajuda de R$ 400,00 ao mês até dezembro de 2022.

Esse quadro já vem levando empresas de consultoria, como a Eurásia, a admitir a possibilidade de Bolsonaro ficar fora do segundo turno. Se alguém afirmasse isso no primeiro semestre, seria visto como lunático.

Com base na mudança do cenário político, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, recomenda que a terceira via tenha como estratégia tirar Bolsonaro do segundo turno, recuperando o eleitorado historicamente de centro que migrou para o presidente, em 2018. Há um raciocínio pragmático nesta conclusão: Lula estaria consolidado para ir para o segundo turno.

Visto por esse ângulo, o centro teria uma enorme avenida à sua frente, com os ventos soprando a seu favor.

Mas há o outro lado da moeda, que consiste no ponto fraco da terceira via: sua dispersão. Já são onze seus presidenciáveis. Isso dificulta a definição de uma candidatura. Quem tem tantas alternativas finda não tendo nenhuma. Foi assim em 2018, quando o centro, pulverizado, deu vexame. Se repetir o erro, corre o risco de desaparecer, como aconteceu recentemente no Peru.

Falta também um discurso capaz de empolgar o eleitorado. Até agora, quem tem um projeto minimamente elaborado é Ciro Gomes, mas é um programa passadista, dos tempos do nacional-desenvolvimentismo. O discurso do nem-nem é muito pouco para empolgar o Brasil.

A terceira via terá de dizer aos brasileiros qual o seu projeto para o país e qual o caminho para promover a conciliação nacional.

As duas dificuldades, dispersão e falta de um projeto, não são insuperáveis, mas dependem, no curto de prazo, de quatro fatores que ocorrerão até o final do ano: a oficialização da União Brasil, a candidatura de Rodrigo Pacheco, a de Sérgio Moro e o desfecho das prévias do PSDB.

No caso da União Brasil ainda não está claro se o novo partido será um protagonista, ofertando uma candidatura agregadora, como poderia ser a do ex-ministro Henrique Mandetta. Também pode apostar em um outsider, como o apresentador Datena. Ou abrir mão de ter um candidato. Nesse caso, apesar de ter amplo tempo de televisão e ser líder em matéria de recursos dos fundos partidário e eleitoral, a União Brasil pode ser um gigante de pés de barro, sem peso real na disputa presidencial.

O xadrez da terceira via ficou mais complexo com a entrada de duas novas peças: Rodrigo Pacheco e Sérgio Moro.

Atribuía-se a candidatura do presidente do Senado ao pragmatismo de Gilberto Kassab de lançar um candidato a presidente apenas para ter a liberdade de construir palanques regionais – em sintonia com seu objetivo estratégico de eleger a maior bancada no Congresso – para depois apoiar Lula no segundo turno.

Essa leitura pode ser equivocada. Mesmo que, por hipótese, esse tenha sido o objetivo inicial de Kassab, Rodrigo Pacheco não entraria na disputa se sua candidatura não fosse para valer e não houvesse a possibilidade real da terceira via deslocar Bolsonaro do segundo turno. Nesta semana Pacheco filia-se ao PSD, em ato em Brasília, no simbólico memorial JK. No último sábado, ao participar de uma agenda organizada por Eduardo Paes, no Rio de Janeiro, Pacheco estava afiado. E deu pistas das linhas mestras de seu discurso de campanha, que incluiu se alinhar à imagem desenvolvimentista e conciliadora de Juscelino Kubitscheck, tendo como eixo o binômio união-desenvolvimento.

A partir de novembro, Sérgio Moro peregrinará pelo país para lançar seu livro. Na verdade, estará dando o pontapé inicial de sua pré-candidatura pelo Podemos, partido ao qual se filiará no próximo dia 10. Ela embute o risco de, em vez de agregar, criar uma nova polarização no país, entre lavajatistas e antilavajatistas. Atingido por decisões do STF, o ex-juiz vai usar sua candidatura para defender sua biografia. De uma certa forma, Lula fez o mesmo em 2018, por meio da candidatura de Fernando Haddad.

Com Ciro correndo em faixa própria numa candidatura inarredável, os olhos voltam-se para as prévias tucanas, dia 21 de novembro. Se vencer, João Doria sairá fortalecido, respaldado ainda pelo bom desempenho de seu governo e por contar com forte apoio do mundo dos negócios. Seria preciso muito poder de argumento para convencê-lo a desistir em nome da união. Dito de outra forma: como aposta Rodrigo Maia, Doria seria o próprio nome da unidade. A conferir.

Em outra faixa corre Eduardo Leite. O governador gaúcho cresceu na disputa interna ainda sem ameaçar a liderança de Doria. Seu discurso tem similaridade com o de Pacheco no tocante à união e remete ao “choque de capitalismo” pregado por Mario Covas. Se vitorioso, ele diz estar aberto ao entendimento em torno de um nome comum da terceira via, sem fazer de si uma cláusula pétrea.

As onze pré-candidaturas estão na fase de testar sua viabilidade. Dificilmente haverá rearranjos antes de abril ou maio do ano que vem. Se resistir à união e perder o timing, a terceira via deixará de montar no cavalo encilhado que está passando à sua porta.

 

Hubert Alquéres é membro da academia Paulista de Educação.