Favoritismo de Lula em xeque (por Hubert Alquéres)
A aposta de Lula e de seus estrategistas é reeditar na disputa presidencial o confronto entre fascismo e democracia.
atualizado
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Autor do livro A mão e Lula: o que elege um presidente, o cientista político Carlos Alberto Almeida é uma voz respeitada por expoentes da esquerda, como o próprio Lula. É de sua autoria a sentença com poder de provocar pesadelos no presidente e em sua equipe: Lula “é favorito para perder”.
Sua constatação se dá após quatro pesquisas de intenções de voto da rodada de março indicarem, com pequenas variações entre si, um quadro de empate técnico entre o pré-candidato da esquerda e o da direita, Flávio Bolsonaro. O dado mais relevante dessa rodada é que, em três meses, houve uma queda expressiva da diferença entre eles.
Em dezembro, segundo o Datafolha, Lula tinha uma vantagem de quinze pontos. Agora, essa vantagem estreitou-se para apenas três pontos. Outros institutos, como o Paraná Pesquisas e o Atlas, apontam um quadro mais dramático, com um rigoroso empate entre os dois pré-candidatos.
Os números são extremamente perturbadores para o Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança. A avaliação negativa do governo vem se repetindo desde 2024, e a rejeição de Lula está na casa de 46% dos eleitores.
Ainda que haja certo exagero na afirmação do cientista político, inegavelmente o favoritismo de Lula, que era dado como pedra cantada há três meses, esvaiu-se. Pode-se argumentar que o incumbente que disputa a reeleição é sempre favorito. Mas essa lei da política tem sido contrariada pela realidade, lá fora e aqui. Jair Bolsonaro que o diga.
A prudência recomenda não apontar um favorito a seis meses da eleição. O realismo impõe reconhecer a existência de um quadro extremamente polarizado, com pouquíssima margem de manobra para um tertius. Ainda que hoje se vislumbre um segundo turno, é preciso manter o olhar atento à evolução do quadro para saber se essa hipótese se confirmará. O certo é que será uma disputa tão ou mais apertada do que a de 2022, sem haver, no momento, um favorito.
Calcula-se que o resultado estará nas mãos de cerca de 5% dos eleitores, os chamados “independentes”.
Quando Bolsonaro indicou seu filho Flávio como herdeiro eleitoral, o clima no Palácio do Planalto e no PT foi de soltar fogos. A escolha era vista como o acerto da estratégia de Lula de escolher alguém com o sobrenome Bolsonaro como o adversário dos sonhos. Imaginava-se que isso beneficiaria Lula ao carimbar a polarização como uma batalha entre democracia e fascismo. Também se supunha que o sobrenome transferiria ao filho a rejeição oceânica do pai. Seria muito melhor enfrentá-lo nas urnas do que a outro oponente de perfil mais “moderado”, como Tarcísio de Freitas.
É verdade que, há poucos dias, um petista, João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara e consultor de Lula, alertou que Flávio seria um adversário muito mais difícil de bater. Essa mesma opinião é compartilhada por vários analistas, para quem Flávio não precisa ficar a toda hora acenando para a direita, pois ela rapidamente se reorganizou em torno de seu nome.
Em outras palavras: não precisa provar a todo momento que é de direita e pode, portanto, acenar para outro público-alvo, o chamado eleitorado independente, vendendo a imagem de ser mais “moderado” do que o pai. O “bolsonarismo soft” pode ser uma miragem, mas esse discurso tem ressonância em franjas do eleitorado que são conservadoras, mas não pertencem à direita extremada.
Entender por que essa estratégia não deu certo exige um olhar atento para questões subterrâneas que agora afloram à luz do dia. Lula paga o preço de não ter entendido que o Brasil mudou muito quando comparado ao país de seus dois primeiros mandatos.
Houve mudanças antropológicas e econômicas fundamentais, como o peso do agronegócio, dos evangélicos e do empreendedorismo. Somos um país mais conservador e mais tradicionalista do que no início deste século.
Sem entender as mudanças estruturais ocorridas nas últimas décadas, Lula montou um governo mais à esquerda do que é a sociedade. Com a experiência de quem foi líder nos governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, o ex-senador Romero Jucá deu um diagnóstico cirúrgico em entrevista recente: “Lula não colocou (no seu terceiro mandato) o centro democrático na linha de definição das políticas do governo. Ele deu ministérios aos partidos, mas o Palácio do Planalto só tem petistas. Nos governos Lula 1 e 2, o Planalto era plural, mais ampliado do que o PT (…) Agora, Lula montou o governo buscando um pouco mais à esquerda.”
Essa visão aparece nas pesquisas. Segundo Felipe Nunes, do Instituto Quaest, a população enxerga o governo Lula 3 como mais radical do que seus dois governos anteriores. Daí surge a contradição entre um país que guinou à direita e um governo que caminhou na direção oposta nos últimos três anos.
Para entender melhor como anda a cabeça dos brasileiros, é preciso focar a lupa nas pesquisas qualitativas, sobretudo em como o imaginário da população enxerga os dois principais candidatos. Um debate da Fundação Fernando Henrique Cardoso, realizado na semana passada, deu algumas pistas.
Nas qualitativas, o governo Lula aparece como apagado. Não se trata de uma crítica à idade do presidente, mas à falta de brilho: um sentimento de que seu governo já deu o que tinha de dar, de que pertence ao passado. Em outras palavras, é visto como um governo “mais ou menos” e distanciado do povo. Esse último valor aparece com frequência quando se avalia o próprio Lula, percebido como cansado, desgastado e um produto político frágil.
Já a imagem de Flávio pode indicar que ele vem obtendo sucesso em sua estratégia de estabelecer pontes com um eleitorado que vá além do bolsonarismo. Ele aparece como mais moderado, sobretudo quando comparado com seus irmãos e com o pai. E como alguém com capacidade de ser mais independente do núcleo familiar, mais aberto à negociação e capaz de representar renovação. Pode ser apenas uma imagem, mas é assim que começa a ser visto.
Aqui, a comparação é altamente desfavorável a Lula: um representa o velho; o outro, a renovação. Como mudar essa percepção?
Primeiro, é imperativo ter um diagnóstico das causas da erosão do favoritismo de Lula. O PT atribui o fenômeno a fatores isolados. Já foi o imposto das blusinhas, o PIX e agora, segundo Edinho Silva, presidente do Partido dos Trabalhadores, o sentimento antissistema decorrente da fraude do INSS e do escândalo do banco Master: “Quando se cria um ambiente antissistema, quem perde é o status quo. E a representação máxima do status quo é o presidente.”
Todos esses fatores têm seu peso, claro. Mas é preciso ir a fundo para analisar se a estratégia adotada é a mais adequada.
É difícil lograr êxito quando se leva em consideração que a aposta de Lula e de seus estrategistas é reeditar na disputa presidencial o confronto entre fascismo e democracia. Trata-se da repetição da estratégia de 2022.
O próprio fato de a democracia brasileira ter demonstrado resiliência diante do 8 de janeiro de 2023 afasta o temor de que algo semelhante venha a acontecer. Falta aderência ao “risco do fascismo” como bandeira principal para a disputa presidencial.
Há ainda a frustração na aposta de medidas capazes de turbinar a popularidade do presidente e de seu governo. Isso aconteceu com a frustração das expectativas com a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais.
Segundo o último Datafolha, a faixa mais crítica ao governo é de quem ganha entre dois a cinco salários mínimos.
Quando se erra na estratégia, medidas táticas não alteram o jogo. Se continuar nessa toada, Lula pode acabar confirmando a premonição de que é “favorito a perder”.
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Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.


