De novo, a terceira via (Por Felipe Sampaio)

Muitas vezes o terceiro candidato pode representar exatamente o oposto do que o eleitor imagina

atualizado 07/12/2021 1:40

No linguajar eleitoral diário tornou-se normal usar a expressão terceira via para classificar qualquer um que desponte como alternativa aos dois candidatos que liderem o páreo.

Em 2022, levando-se em conta as duas principais candidaturas presidenciais, o que seria uma terceira via? E se o terceiro colocado ultrapassar o segundo, torna-se a terceira via?

No cenário da disputa presidencial do próximo ano, quem melhor representaria a Terceira Via? Seria o candidato do Podemos? Ou seria o PDT? E o PSDB, qual ‘via’ representa, aparecendo em quinto lugar segundo especialistas? O PT volta a ser a primeira via em 2022, depois de ter sido segunda via em 2018?

O hábito de se chamar a um terceiro candidato de terceira via tem criado a impressão de que, entre dois líderes consolidados, é melhor escolher um terceiro. A candidatura do PSL (de extrema direita) apresentou-se com essa roupagem em 2018. Entre o PSDB e o PT, acreditou-se ser melhor escolhê-la como terceira via.

Essa foi uma situação no mínimo curiosa, porque PT e PSDB, na verdade, são atualmente os principais representantes brasileiros do campo político denominado Terceira Via.

Mesmo se considerarmos as sutilezas pendulares ocasionais que possam levar o PT um pouco mais para a esquerda (não indo além da social-democracia), ou empurrar o PSDB um pouco para a direita (até o campo do liberalismo), ambos trafegam na faixa da Terceira Via.

Pode-se considerar que na sua origem o PT se situasse no socialismo democrático, sendo um partido ligado aos sindicatos e outros movimentos sociais, e que propunha o Estado como provedor de serviços públicos, de regulação do capital privado e de programas sociais. Com o tempo, foi deslocado para o centro em função das alianças com a direita (imaginando terem alcance tático e passageiro) que acabaram por desviá-lo e derrubá-lo.

Já o PSDB, apesar do nome, tem origem em um estrato político, social e econômico que o situam como Terceira Via desde o berço. Mesmo apresentando algum compromisso social e ambiental, não se propôs a se distanciar de políticas econômicas e regulatórias liberais. Com o tempo, tem se reinventado por dentro como um ente de centro-direita.

Ou seja, a Terceira Via seria terceira mesmo que não houvesse outra. Ela não se torna terceira por força de circunstâncias eleitorais locais e momentâneas. Em 2022, apesar de o PT estar na primeira posição, é Terceira Via (com apoio de segmentos do centro e da esquerda democrática). Por sua vez, o PSDB larga bem atrás, mas também é Terceira Via (com apoio de setores do centro e da direita liberal).

Terceira Via consolidou visibilidade mundial com a ascensão de lideranças como o presidente norte americano Bill Clinton e o primeiro-ministro britânico Tony Blair. Não se pode dizer que represente uma alternativa à extrema direita e ao comunismo revolucionário. É muito mais uma opção recente ao neoliberalismo (de Ronald Reagan ou Margaret Thatcher) e ao Estado de bem-estar social europeu.

Sendo assim, a Terceira Via atende aos eleitores que queiram um modelo de governo com certo nível de compromissos com a redução de desigualdades sociais e com o desenvolvimento sustentável, mas que preferem um Estado com papel regulador e indutor da economia limitado (“Estado do tamanho certo”, seja lá o que isso signifique).

Dito de outra forma, nem sempre a terceira opção é Terceira Via. Muitas vezes o terceiro candidato pode representar exatamente o oposto do que o eleitor imagina e gostaria de conquistar como sociedade justa e próspera.

 

Felipe Sampaio é co-fundador e colaborador do Centro Soberania e Clima (CSC) e escreve no Capital Político. 

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