Convocação põe Guedes na berlinda (por João Bosco Rabello)

Guedes sai mais fraco do episódio pela simples decisão de chamá-lo ao plenário

atualizado 08/10/2021 4:53

Rafaela Felicciano/Metrópoles

A expressiva votação da Câmara pela convocação do ministro da Economia, Paulo Guedes, para explicar sua offshore, realça o caráter de aliança eleitoral, mas não política, entre o governo e o chamado centrão.  Nela, a reeleição prioritária é a do bloco e não do presidente da República.

Guedes foi convocado para inquirição no plenário e não em comissão, versão mais rara e seletiva de interrogatório, que amplia o grau de risco do convocado e sinaliza, mais que desconforto, advertência.

A Câmara poderia ter aprovado um convite, ou uma convocação para falar em comissão. Dado que possuir offshore não é ilegal – se dentro das regras-, a convocação nos termos em que foi aprovada pode indicar tanto uma estratégia para enfraquecer mais o ministro como revelar suspeita de que movimentou a conta já no cargo.

De uma forma ou de outra, Guedes sai mais fraco do episódio pela simples decisão de chamá-lo ao plenário. Sem data marcada, a convocação funciona como uma espécie de espada de Dâmocles sobre a cabeça do ministro da Economia, que já não anda lá tão firme em cima do pescoço.

A aliança entre governo e centrão, mais uma vez, expõe quem a comanda. Se Bolsonaro tem o poder de executar as emendas exercendo sua parcela de chantagem na parceria – como o faz agora com o Senado -, o bloco parlamentar mostra que há outros meios de impor sua vontade política.

Guedes poderá ir ao plenário, ou não, se a convocação permanecer sem data, em uma estratégia similar à que o Senado aplica à sabatina de André Mendonça. A diferença está em que a convocação do ministro significa derrota para o governo e a de Mendonça, vitória. Na fila de espera, ambos contrariam o presidente da República – mas Guedes na condição de suspeito.

O que fica mais evidente é que a aliança governista tem objeto e prazo de validade para o centrão. O alicerce é relativo e pendular e oscila conforme os interesses que o sustentam – de financiamento político via emendas que se transformam em benfeitorias eleitorais e a concretização de uma pauta governista de efeito insípido porque condicionada a não piorar o humor do eleitor.

Em analogia com a esfera judicial, na política Guedes hoje é réu.

 

João Bosco Rabello escreve no Capital Político. Ele é jornalista há 40 anos, iniciou sua carreira no extinto Diário de Notícias (RJ), em 1974. Em 1977, transferiu-se para Brasília. Entre 1984 e 1988, foi repórter e coordenador de Política de O Globo, e, em 1989, repórter especial do Jornal do Brasil. Participou de coberturas históricas, como a eleição e morte de Tancredo Neves e a Assembleia Nacional Constituinte. De 1990 a 2013 dirigiu a sucursal de O Estado de S. Paulo, em Brasília. Recentemente, foi assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública

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