Cheiro de queimado (por João Bosco Rabello)

É o centrão que põe Paulo Guedes a se explicar, ao invés de reduzir o episódio. Uma vez na Arena, estará só

atualizado 11/10/2021 2:40

Lambe-Lambe com a imagem do Ministro da Economia Paulo Guedes em uma cédula de US$ 9,55 milhões é visto na Avenida Faria Lima, zona sul de São Paulo Fábio Vieira/Metrópoles

Com menos intensidade que o presidente do Banco Central, Campos Neto, a situação do ministro da economia, Paulo Guedes, sofre crescente deterioração no governo após a revelação de sua offshore no exterior.

O caso de Guedes aparenta maior gravidade, mas seu contágio pode ser letal também para Neto. Este parece ter sido mais cuidadoso nas informações prévias à sua posse no BC, sobre a offshore que mantém.

O ministro não convence mais que o colega do BC por dispensar informações adicionais relativas à participação de familiares na empresa, fator que a legislação abrange nesses casos.

O que mais reforça a leitura de que Guedes vive seu momento mais crítico no governo é ter virado alvo explícito do centrão, na disputa sangrenta por cerca de R$ 20 bilhões que faltarão ao orçamento recauchutado para conciliar as demandas eleitorais do bloco e do presidente da República.

Não é outra a razão de sua convocação para explicar, no plenário da Câmara o enredo da offshore. Em política, como repetia sempre o ex-senador e governador baiano Antônio Carlos Magalhães, quando é preciso explicar muito é melhor sair de cena.

Não escapa aos observadores que a convocação de Guedes tem esse propósito de desgastá-lo pelo excesso de explicações. Em circunstâncias normais, um ministro tem convocações para depor em comissões atenuados para convites por intervenção da base aliada ao governo.

Com Guedes, deu-se o contrário: a base cuidou de radicalizar e empregar a mais drástica medida parlamentar contra o ministro da Economia: é convocado (não convidado) e para falar no plenário. Ainda que por surrealismo quisesse reverter a situação, a oposição, por óbvio, não teria força para tal.

Trocando em miúdos, a base do governo joga Guedes às feras no melhor estilo romano de circo dos horrores. É o centrão que põe Guedes a se explicar, ao invés de reduzir o episódio. Uma vez na Arena, estará só.

O presidente Bolsonaro não se manifestou sobre o episódio e nem repele as especulações em torno de nomes para substituir Guedes, o que não é casual. Não é hora de se expor negativamente, afinal a campanha eleitoral já começou há muito tempo.

Com Lula em campo, é preciso cada vez mais evitar denúncias de corrupção e esse enredo de offshore, por mais que tenha cobertura legal, cheira a coisa errada – e o mau cheiro é sensível às narinas políticas. Em debate eleitoral será tratado como antipatriotismo de um governo que prega o Brasil acima de tudo.

Com a solução dos precatórios encaminhada de forma a garantir os R$ 25 bilhões necessários ao programa social de Bolsonaro, que faça frente ao bolsa-família na sua disputa com Lula, resta garantir ao Centrão as suas, em torno de R$ 20 bilhões, como calcula o economista Samuel Pessoa.

Guedes é contra porque é um claro avanço em direção ao estouro do teto e, por isso, o centrão o fez subir ao pelourinho. Sua execução dependerá de uma improvável conversão. Se optar pelo confronto, poderá deixar o governo pela razão errada, mas com o pretexto certo.

A offshore é uma cova aberta desde a posse.

 

João Bosco Rabello escreve no Capital Político. Ele é jornalista há 40 anos, iniciou sua carreira no extinto Diário de Notícias (RJ), em 1974. Em 1977, transferiu-se para Brasília. Entre 1984 e 1988, foi repórter e coordenador de Política de O Globo, e, em 1989, repórter especial do Jornal do Brasil. Participou de coberturas históricas, como a eleição e morte de Tancredo Neves e a Assembleia Nacional Constituinte. De 1990 a 2013 dirigiu a sucursal de O Estado de S. Paulo, em Brasília. Recentemente, foi assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública