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As cidades, na UTI do caos climático (por Felipe Sampaio)

Não é exagero parodiar a fala do Secretário-Geral da ONU: “[as cidades] se aproximam do caos climático irreversível”

atualizado 24/11/2022 1:05

Foto colorida do sol Igor Estrela/Metrópoles

A COP 27 que se encerra ressaltou dois pontos que afetam diretamente as cidades: a validade, em si, da meta de aquecimento (+1,5°C) e a compensação financeira dos estragos climáticos.

Não é exagero parodiar a fala do Secretário-Geral da ONU: “[as cidades] se aproximam do caos climático irreversível”. Nessa situação, nem sempre prevenir é melhor do que remediar.

Contudo, os municípios ainda praticam o que Fritjof Capra chamou de “visão mecanicista newtoniana”, na qual os fenômenos têm causa detectável e efeito previsível.

Em meio a um desequilíbrio climático caótico, Newton não resolve o drama urbano. Os extremos climáticos estão mais frequentes e intensos: chuvas torrenciais, nível dos oceanos, ciclos das marés, ondas de calor, inundações, desabamentos, secas, epidemias etc.

Abrigando mais da metade da humanidade (no Brasil, mais de 80%), as cidades consistem em um espaço crítico da era do aquecimento global, que ameaça o modo de vida urbano.

Os governos municipais não se prepararam para o ritmo e a intensidade acelerados da mudança climática. Os debates sobre o futuro das cidades permanecem no nível da mitigação de desastres que lhes parecem distantes, quando já é urgente formular planos de ação e investimento para adaptação urbana a cenários distópicos.

Some-se a isso o fato de que o suado fundo para ‘compensação de perdas e danos’ (extraído a fórceps na última madrugada da Cúpula do Clima) não chegará às cidades brasileiras. A fila pelos recursos prometidos é longa: África, países insulares, florestas e as áreas produtoras de alimentos.

Enquanto isso, medidas de prevenção estruturais, apresentadas em eventos sobre o desafio climático das cidades, ainda se mostram paliativas. Engenheiros sabem que “qualquer obra é projetada para suportar as condições extremas de sua época”.

Porém, se esses extremos alcançam intensidade e ocorrência imprevisíveis, as obras tornam-se mais complexas e caras, multiplicando a necessidade de prover um tipo de infraestrutura incomum (outra vez, quem banca a decisão política e o gasto?).

Quais seriam as obras de fato eficientes numa perspectiva planetária de mudança climática? Muros de arrimo? Drenagem de solo? Recomposição vegetal? Alargamento costeiro? Diques de contenção? Transferência de edificações? Ou, nenhuma dessas?

Com a intensificação dos desastres, muda também a escala de tempo. Haverá vontade política e orçamento para que o Estado e os agentes econômicos reajam com a rapidez e a dimensão necessárias?

Que prefeito terá coragem de bancar adaptações urbanas a fenômenos futuros (ainda que iminentes)? Que presidente, governador ou parlamentar o apoiará?

 

Felipe Sampaio: ex-secretário executivo de Segurança Urbana do Recife (2019-2020); foi assessor especial dos ministros da Defesa (2016-2018) e da Segurança Pública (2019); cofundador do Centro Soberania e Clima.

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