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Aos amigos, tudo, aos inimigos, a censura (por Mirian Guaraciaba)

Até quem ajudou a eleger Bolsonaro, condenou a proibição do ministro do TSE

atualizado 29/03/2022 0:32

Banda Fresno se posiciona contra Bolsonaro durante show no Lollapalooza Reprodução/Redes Sociais

Dois pesos e duas medidas. Bolsonaro faz muito bem em não confiar na Justiça eleitoral. Não anda exata, menos ainda transparente. No sábado, o ministro Raul Araújo, do TSE, proibiu manifestações políticas durante apresentações do festival Lollapalooza. A cantora Pabllo Vittar havia levantado bandeira de Lula durante o show. O ministro atendeu ao PL, partido de Bolsonaro.

Há um mês, o mesmo Raul Araujo negou pedido do PT de retirada de outdoors instalados em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Bahia e Santa Catarina, com propagandas claramente favoráveis à reeleição de Bolsonaro. Isso pode, decidiu o ministro. Não é propaganda antecipada.

No Lollapalooza, a resposta ao tribunal veio dos palcos: Glória Groove rebolou muito exibindo o número 13 impresso nas costas de sua camiseta vermelha, Lulu Santos condenou a decisão do TSE – “cala a boca já morreu, censura, nunca mais” – e Emicida gritou forte. “Fora Bolsonaro”.

Juristas não gostaram da decisão (autocrática, diga-se) do TSE. E estamos apenas no começo de um ano eleitoral que, a depender de decisões como essas da Justiça Eleitoral, pode sair dos eixos. O ex-presidente do TSE, ex-ministro do STF, Marco Aurelio Mello, condenou a proibição: “Quando se proíbe que se levante cartaz, isso parte para a censura, inadmissível em ares democráticos”.

Mello diz mais: “Eu receio esses arroubos autoritários. Não sou saudosista de uma época de exceção”. Em 2019, quando o STF realizou audiência para debater decreto de Bolsonaro transferindo o Conselho Superior de Cinema, do Ministério da Cidadania, para a Casa Civil, a ministra Carmen Lúcia já fazia coro contra a censura.

Naquele ano, Carmen Lúcia foi enérgica: “é inadmissível e ilegal que o poder público determine ações que, de qualquer maneira, possam limitar, direcionar ou restringir a liberdade de criação e de pensamento de artistas, intelectuais, jornalistas, professores e cientistas”, disse a ministra, nomeada agora juíza da propaganda nas Eleições Gerais de 2022.

Até quem ajudou a eleger Bolsonaro, condenou a proibição do ministro do TSE. No Twitter, Luciano Huck insinuou que não sabia, em 2018, do que Bolsonaro seria capaz: “num festival de música, quem decide se vaia ou aplaude a opinião de um artista no palco é a platéia e não o TSE. Ou ligaram a máquina do tempo, resgataram o AI-5 e nos levaram pra 1968?”

Nem bolsonaristas duvidam do futuro com cara de passado. 1968? 1964? Nesse domingo, em mais um ato de campanha antecipada (ele pode, né, TSE?) o Capitão, em seu discurso de lançamento de candidatura, aproveitou, de novo, para voltar ao período mais nefasto de nossa história recente. E homenageou o torturador Brilhante Ustra.

Homens cruéis, sádicos. Os dois.

Estamos diante de um ser perigoso, manipulador, mentiroso. Há tempos, Bolsonaro só pensa e trabalha pela reeleição. Tem a chave do cofre. O ministro da Economia não apita nada. O País largado à própria sorte, inflação de dois dígitos, gasolina a preço de ouro (ouro dos pastores, certamente) enquanto ele faz comícios, lives, motociatas, em descarada campanha eleitoral.

Bolsonaro desafia a justiça. Desafia a boa fé dos eleitores, provoca o desequilíbrio da disputa. Os artistas, mais uma vez, nesse momento, tem papel importante para disseminar a resposta que o eleitor deverá dar do Capitão: Será o bem contra o mal? O mal é ele. Hora de derrubá-lo legalmente, no voto. Com Lollapalooza. Com tudo.

PS: Já foi tarde o quarto – inútil, pernicioso, perverso, corrupto – ministro da Educação de Bolsonaro. Milton Ribeiro sai e vem mais um apadrinhado por Waldemar Costa Neto, presidente do PL, partido do Capitão. Os pastores continuam ligados ao governo, a peso de ouro.

Mirian Guaraciaba é jornalista

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