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A prevalência da política sobre a economia (por Ricardo Guedes)

É simples. Se Bolsonaro ameaça a democracia, o mercado financeiro se retrai e há fuga de capital

atualizado 11/08/2022 20:33

Presidente Jair Bolsonaro discursa durante convenção que lançou candidatura de seu ex-líder na Câmara dos Deputados, Major Vitor Hugo , ao Governo de Goiás Vinícius Schmidt/Metrópoles

Albert Hirschman, em seu livro Paixões e Interesses: Argumentos Políticos a favor do Capitalismo, expressa os argumentos usados nos séculos XVII e XVIII na implementação do capitalismo, na legitimação da busca de interesses materiais, dantes considerados como pouco dignos, através de argumentação ideológica. A política precede a economia, formando ideias e contornos que possibilitam a atividade econômica.

É certo que Adam Smith em a Riqueza das Nações diz que não existe nada tão inerente e antigo ao homem do que a “propensão de negociar, barganhar e trocar” uma coisa pela outra. Certamente, o mercado existe. Mas se não fossem as ideias que dão forma a novas atividades, estaríamos ainda nos primórdios da civilização. Como diz Arthur Stinchcombe, em toda sociedade o mercado existe, dentro dos contornos e limites culturais de cada sociedade.

As ideias e pactos formados são essenciais para o bom desenvolvimento das atividades econômicas. Como diz Rousseau, faz-se necessário o Contrato Social, que regrem a sociedade. Na existência de um Contrato Social, as sociedades prosperam; fora do Contrato Social, somente a barbárie.

É simples. Se Bolsonaro ameaça a democracia, o mercado financeiro se retrai e há fuga de capital. Falta ao Brasil um pacto político que libere suas amarras, dentro dos limites de sua cultura.

As tentativas foram sucessivas. Com D. João VI, o início de nossa história contemporânea, com a instalação do Estado, do ensino, da saúde, e das engenharias militar e civil. Com D. Pedro II, as bases da modernidade com a Escola de Minas de Ouro Preto, a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e da imigração na busca de know-how.  Com Getúlio Vargas, a formação da política urbana, da relação entre empresários e trabalhadores com a mediação do Estado. Com Juscelino Kubitschek, a substituição das importações criando nossa indústria moderna. Com o período militar, o processo de urbanização e crescimento econômico. Com Fernando Henrique, a estabilidade da moeda como instrumento de desenvolvimento e distribuição de renda. Com Lula, os programas sociais dentro da economia de mercado na recuperação do passivo social. Com Bolsonaro, o retrocesso.

O Brasil é um país de enormes qualidades e de futuro quem sabe, se assim o construirmos. Somos 5,7% das terras do planeta e 2,7% de sua população, com água, florestas e recursos naturais. Temos setores de excelência, como o mercado financeiro, a indústria, o agronegócio, a mineração, a Embraer. Temos uma matriz de energia limpa. Um parque universitário de relevância com a USP, a UNICAMP e as Federais. Temos cultura, arte, música e esportes. Um povo agraciado e bem-visto pelo mundo, como retratado nas Pesquisa Mundiais da Sensus. Temos o cerne cultural do que se precisa. Falta um pacto que lhe dê melhor forma, com as reformas necessárias, para o seu desenvolvimento contínuo e autossustentado. A tempo.

Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago e CEO da Sensus

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