A novidade (por Mary Zaidan)

Simone Tebet pode não chegar lá, mas já começa a dar trabalho

atualizado 11/07/2021 3:27

Hugo Barreto/Metrópoles

Fora os índices de rejeição, que fulminam pretensões eleitorais, pesquisas de intenção de voto costumam ser analisadas de acordo com o gosto do freguês. Embora o favoritismo de Lula tenha se desenhado diante de um Jair Bolsonaro cada vez mais minguado, seria recomendável alguma cautela dos que já dão o jogo como encerrado. Até porque novidades surgem.

A 15 meses da eleição e sem todas as opções postas à mesa, imensa parcela dos eleitores, 42%, não aponta qualquer candidato fora dos nomes mais conhecidos – Lula (26%), Bolsonaro (19%), Ciro (2%), nas respostas espontâneas. E a rejeição – 59% para Bolsonaro e 37% a Lula – é desconfortável para os líderes.

Bolsonaro, que aumenta o tom de fúria na proporção do aperto da corda em seu pescoço, esforça-se para manter um imaginário 30% de apoiadores que supostamente teria, mas que a realidade não comprova. Lula até consegue ultrapassar o seu nicho, atraindo bolsonaristas arrependidos e parte do contingente que anulou ou votou em branco em 2018.

O drama do centro é mais agudo: tem espaço para conquistar os nem-nem, os que rejeitam Bolsonaro e Lula, mas não tem candidato.

Luciano Huck, que apresentava chances eleitorais pela sua fama televisiva, pulou fora da disputa. O pedetista Ciro Gomes (8% das respostas estimuladas), tem um gênio difícil e avesso à aglutinação de forças. O PSDB, com sua eterna guerra fratricida, quase não pontua nas pesquisas: o governador João Doria (5% de intenção de votos e 37% de rejeição), mesmo com a elogiada e decisiva ação pró-vacina, não consegue romper antipatias, e o gaúcho Eduardo Leite (4%), que até ganhou pontos extras ao se tornar o primeiro governador e pré-candidato assumidamente gay, também está longe de se tornar competitivo. Tasso Jereissati é visto como reserva técnica. Sem partido, Sérgio Moro, colaborador e algoz de Bolsonaro, é tido como carta fora do baralho, e o demista Luiz Henrique Mandetta, uma candidatura forçada, criada a partir de um sucesso momentâneo. O popular José Luiz Datena, recém filiado ao PSL, é um outsider, uma incógnita.

Mas em eleição, por mais que as peças pareçam dispostas, surpresas surgem. A do momento é a senadora Simone Tebet, primeira mulher a presidir a Comissão de Constituição e Justiça do Senado e a disputar, por duas vezes, a Presidência da Casa.

Estrela da CPI da Covid, colegiado que nem mesmo integra formalmente, Simone deixou de ser cogitada como a vice ideal para assumir protagonismo na disputa de 2022. Animado, o MDB, que sempre atuou como linha auxiliar sem almejar a cabeça de chapa, tem pregado abertamente a opção. Claro, enfrentando resistências de líderes como Renan Calheiros, que adoraria ser vice de Lula.

Firme nos embates, a senadora foi quem, depois de horas de negativas, arrancou do deputado Luis Miranda, denunciante do escândalo da Covaxin, o nome do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, que teria sido citado pelo presidente Jair Bolsonaro como autor de “rolos” no Ministério da Saúde. É dela também a análise detalhada do invoice suspeito, com 17 erros, que o secretário-geral da Presidência da República Onyx Lorenzoni usou para atacar os denunciantes e proteger o presidente do exposto crime de prevaricação.

Na sexta-feira, mesmo dia em que os presidentes do Congresso Nacional, senador Rodrigo Pacheco, e do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, reagiram com firmeza à nova rodada de insultos do presidente à democracia – “atuar para impedir as eleições viola a Constituição e configura crime de responsabilidade”, escreveu Barroso -, Tebet adicionou delitos ao rol de Bolsonaro, assegurando que a CPI já tem elementos para acusá-lo.

No Mato Grosso do Sul, seu estado, a senadora já é tratada como candidata. Em Três Lagoas, cidade natal onde foi eleita prefeita e reeleita por 75% dos votos, ela já está no Planalto. Bairrismos à parte, Simone reúne credenciais para um centro carente de nomes, com capacidade de aglutinar um campo que prega unidade mas não raro pratica dissenso.

Filha do senador Ramez Tebet, que presidiu as CPIs que provocaram a cassação de Luís Estevão e a renúncia de poderosos como Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho, Simone é defensora ferrenha dos direitos das mulheres, progressista nas pautas identitárias e centrista por natureza: votou a favor do teto de gastos públicos e da reforma da Previdência, rejeitou o decreto pró-armas.

Simone é a novidade. Pode não chegar lá, mas já começa a dar trabalho.

Mary Zaidan é jornalista