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A Marcha da Insensatez (por Eduardo Fernandez Silva)

A humanidade caminha para o esgotamento de três elementos básicos da vida em nosso planeta – terra, água e ar puro

atualizado 04/10/2022 23:02

Misseis disparados pela Ucrânia contra a Rússia - Metrópoles Getty Images

No livro “A marcha da insensatez”, publicado originalmente no simbólico ano de 1984, a historiadora Barbara Tuchman analisa diversos episódios históricos, nos quais as lideranças adotaram políticas contrárias aos interesses de seus povos e delas próprias.

Vários casos de insensatez são analisadas no livro: entre outros, a dos dirigentes ingleses que levou à perda da América do Norte; a de Carlos XII, depois Napoleão, depois Hitler, que os levou a desastrosas invasões da Rússia; a estultice dos papas renascentistas que provocou o cisma protestante; os reveses dos EUA no Vietnam.

Embora escrito há meio século, logo no início a autora indaga “por que empresários [e governos] insistem na tônica do “crescimento” quando tal coisa, provadamente, vem causando o esgotamento de três elementos básicos da vida em nosso planeta – terra, água e ar puro?”

O objetivo sensato, nesta terceira década do século XXI, deve ser, direta e explicitamente, a melhoria da qualidade de vida em seus vários aspectos – saúde, educação, segurança alimentar, etc. –  e não a insensata insistência no crescimento que exaure ar puro, terra e água para, num incerto amanhã, melhorar a qualidade de vida.

No atual século, a insensatez tem se agravado, elevando os riscos para todos. Há projetos de extração de combustíveis fósseis em implantação que lançarão na atmosfera múltiplos do dito “orçamento de carbono”, o máximo compatível com o objetivo de restringir a 1,50C a elevação da temperatura. Também insanas são as práticas adotadas por dirigentes russos, norte-americanos e colegas da OTAN, chineses, indianos, australianos e brasileiros.

Em 1991 a União Soviética se desintegrou e a OTAN ficou sem inimigos. Em seguida, líderes russos fizeram tentativas de desenvolver relações pacíficas com a OTAN, que as rejeita e se expandiu – contra as recomendação de ninguém menos que Kissinger –, no clássico movimento de pinça para cercar o “inimigo”, não mais a União Soviética mas agora a Rússia. Alega-se ser inaceitável o regime autocrático russo, embora diversos aliados dos EUA sejam também autocráticos. Acossada, a Rússia reage, anexa a Crimeia, ataca a Ucrânia e tem início uma guerra entre ela e a OTAN, travada com o sangue de russos e ucranianos. Ou alguém imagina que sem o apoio e as armas da OTAN a evolução da luta seria como tem sido?

A escalada prossegue, e cada vez mais se fala no uso de armas atômicas, o que parece provável, a se continuar a marcha da insensatez.

Há vozes apontando caminhos alternativos, entre elas a do Papa Francisco. Mas, como teria dito Stalin, “quantas divisões tem o Papa”?

O pensamento antigo tem que ser superado; “esquerda X direita” deve dar lugar a “séculos passados X  século XXI”, para que a esperança retorne e nos governe. Como disse John Adams, segundo presidente dos EUA: “Enquanto todas as demais ciências progrediram, a de governar marcou passo; está sendo praticada, hoje, apenas um pouco melhor do que há três ou quatro milênios”.

 

 

Eduardo Fernandez Silva. Mestre em Economia. Ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados