A hora do agiota (por João Bosco Rabello)

O desenho vai mostrando que o maior perdedor individual com a aliança entre Bolsonaro e Centrão pode ser o ministro Paulo Guedes

atualizado 29/07/2021 1:37

Ministro da Economia, Paulo Guedes, da Saúde, Marcelo Queiroga, da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e o da Comunicação, Fábio Faria, falam com a imprensa após jantar do presidente Bolsonaro com empresários Fábio Vieira/Metrópoles

Como ocorre com o cidadão inadimplente, alianças nas circunstâncias da efetivada pelo presidente Bolsonaro com o Centrão, quando o governo já está sem crédito junto ao eleitor, têm juros mais altos e a carta de fiança para a governabilidade alcança o grau da agiotagem.

Os bastidores que precederam a construção do acordo mereceram de uma dessas raposas felpudas do Congresso Nacional um comentário cínico. “Vão ficar procurando pelo em emendas, mas o alvo é o orçamento”, dizia em relação à mídia.

O orçamento secreto parecia confirmar o diagnóstico do parlamentar, mas não era ainda ao que ele certamente se referia. Como mostra a jornalista Adriana Fernandes, está em curso uma articulação pela recriação do ministério do Planejamento para o novo fiador chegar à Secretaria de Orçamento Federal (SOF).

O desenho vai mostrando que o maior perdedor individual com a aliança pode ser o ministro Paulo Guedes cujo desempenho não justificou a experiência de um superministério da Economia, à frente do qual não conseguiu mais que uma reforma que já encontrou pronta – a da Previdência.

Guedes não parece destinado a sair desse novo ciclo de governo com todos os dedos. Não é executor e nem articulador à altura do orador. Nos dois primeiros papéis é o agente funerário do último.

Sua derrota política começa em Rodrigo Maia e se completa com Arthur Lira. A previdência foi o carro seminovo que usou e que deveria devolver por se tratar de apropriação indébita de governo.

A essa altura fica claro que se a experiência do superministério tivesse alguma chance de se consolidar não seria com Guedes à frente. Um dedo se foi com o desmembramento da Previdência e Trabalho para atender à realocação de Ônix Lorenzoni. A amputação prossegue.

A rigor, cai por terra, passada a metade do mandato presidencial, outra ilusão do governo Bolsonaro – a de superministros. Antes de Guedes, foi triturado o ex-juiz Sérgio Moro, na Justiça, onde pretendeu intensificar a caça aos políticos parcialmente bem-sucedida na Lava Jato.

As gestões de ambos tinham a premissa errada. Pregavam mudança de hábitos e conceitos, mas era questão de tempo para que duas realidades se impusessem: Bolsonaro nunca foi o defensor do liberalismo econômico e sua conduta parlamentar – e da família – é incompatível com o figurino Jânio Quadros de Moro. Ambos ficaram com a vassoura na mão.

A redução de ministérios não obedeceu a um critério seletivo ditado pela inutilidade de algumas pastas – muitas, na verdade, se consideradas as que foram criadas para contemplar a chamada pauta de costumes, estranha à natureza do Poder Executivo. A dieta acabou e a engorda está de volta.

O expediente de transformar secretarias em ministérios para esse fim, iniciada e consolidada na era PT, criou um monstro de muitos tentáculos, poupando o Legislativo de temas de alto risco eleitoral e abrindo espaço e cargos que ampliaram a estrutura e os custos da máquina administrativa.

Com Bolsonaro, as falsas premissas foram mantidas, pois é a pauta de costumes que sustenta a polarização conveniente a ele, como a Lula. No colo do Executivo, ela divide e serve ao ilusionismo de manter os olhos do cidadão naquilo que parece positivo, enquanto segue o baile da Ilha Fiscal.

A bem da verdade, a discussão sobre a volta ao desenho antigo da Esplanada dos Ministérios nunca deixou de ocorrer durante o governo que a alterou. Guedes obteve o sonho de consumo que acalentava o sono de Henrique Meirelles – a fusão de Planejamento e Fazenda, instâncias distintas na missão de governo e que, dada a experiência ainda em curso, não valia o investimento feito.

Como vocalizou recentemente, Bolsonaro sempre foi Centrão e deveria sentir-se em casa com a aliança. Ao que resistiu porque a vida doméstica implica em mais intimidade, menos poder individual e mais divisão de tarefas – o que não ocorre com os militares.

No Centrão não é comandante-em chefe, para o qual se bate continência ainda que se discorde da ordem recebida. O primeiro tem mandato popular. Da intimidade para a promiscuidade a fronteira é tênue e atravessá-la é menos constrangedor com o centrão.

Bolsonaro corre para a sombra para ficar onde sempre esteve. Como amantes de ocasião, os militares é que saíram de casa para onde os políticos querem mandá-los de volta. E talvez esse seja o benefício a se tirar da aliança, apesar dos pesares.

 

 

João Bosco Rabello escreve no Capital Político. Ele é jornalista há 40 anos, iniciou sua carreira no extinto Diário de Notícias (RJ), em 1974. 

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