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A fronteira norte (por André Gustavo Stumpf)

As novas possibilidades no extremo norte do Brasil constituem novidade absoluta. E a chance de modificar o destino daquela região

atualizado 23/01/2022 8:21

Agência Brasil

Alguém já disse que o Brasil não perde a oportunidade de perder oportunidades. O presidente Jair Bolsonaro está diante da rara possibilidade de promover ações que resguardem a população nas áreas de fronteira com Suriname, antiga Guiana Holandesa, com a Guiana, antiga Guiana Inglesa, e tornem o território brasileiro mais protegido, até conectado ao fluxo internacional de comércio.

O que mudou tudo e colocou na vitrine aqueles países esquecidos na América do Sul, que apesar de estarem no continente não são latinos, foi o petróleo. Um pré-sal foi descoberto nas costas de Suriname e Guiana. Naturalmente, os dois países muito pobres, precisam de investimentos para construir porto, refinaria, rodovias e as obras necessárias de infraestrutura.

O Brasil dispõe de engenharia de alto nível e capital para financiar essas obras que vão se localizar no extremo norte do país. Esses investimentos se casam perfeitamente com um projeto chamado Calha Norte, desenvolvido desde o governo Sarney pelos militares, com objetivo de tornar as fronteiras mais habitadas e, naturalmente, mais defendidas.

Roraima é um estado que possui característica importante. A selva amazônica alcança Caracaraí, cidade que fica, mais ou menos, na metade geográfica do antigo território. Desde ali até a fronteira com a Venezuela e com a própria Guiana, a vegetação é uma savana linda, com capim alto. Poucas árvores. Muita água. Ao fundo a serra de Pacaraima.

É uma região plana, que se presta a uma agricultura intensiva de qualidade. De Boa Vista, capital, até Bonfim, fronteira com a Guiana, são 125 quilômetros servidos por estrada asfaltada. Dali, da cidade de Lethem, porto livre, até Georgetown são 556 quilômetros, dos quais cem são asfaltados. O resto é estrada de terra muito ruim.

Quem se aventurar pela estrada deve ser advertido que o trânsito é mão inglesa. Pela esquerda. E que o pessoal na Guiana, oficialmente, se comunica em inglês. Mas, na prática, eles falam dialeto próprio, temperado por expressões africanas. É o criole.

Essa é a nova e relevante porta que pode se abrir no norte do país. Ela poderá permitir que produtos da Zona Franca de Manaus encontrem mercados no Caribe e até mesmo na Inglaterra, que deixou a União Europeia e está numa busca frenética por novos fornecedores. A cidade de Boa Vista está mais perto de Georgetown que de Manaus (são mais de 800 quilômetros) que é um porto no rio Amazonas.

Georgetown é porto em mar aberto, no Oceano Atlântico. Está ligado ao mundo inteiro. É a nova possibilidade comercial e oportunidade para adensar a fronteira e criar oportunidades nos dois lados da linha divisória entre os dois países.

Fazendeiros paraenses, sobretudo o pessoal da Ilha de Marajó, andaram pela fronteira com Suriname, pensando na expansão da criação de gado, limitada na ilha. O único lugar na Amazônia onde é possível criar boi sem derrubar a floresta é a área dos Tiriós. Há um projeto, ainda embrionário neste governo, para abrir uma estrada desde Óbidos, na margem esquerda do Amazonas, até a fronteira com o Suriname. Seria outra porta comercial que poderá se abrir no extremo norte.

A região precisa de obras de infraestrutura, principalmente, de um bom porto. O Suriname, embora independente, ainda mantem sua relação original com a matriz, o antigo poder colonial que é a Holanda.

A integração destas áreas chamadas de remotas no território brasileiro exigirá criação de empregos no local. Até hoje a cidade de Boa Vista utiliza energia gerada por usinas termoelétricas. A energia que vinha da hidrelétrica de Guri, próxima à Ciudad Bolivar, na Venezuela, foi cortada pelo governo de Caracas.

O linhão que deveria vir de Manaus até a cidade não encontrou solução consensual para atravessar os 120 quilômetros dentro da reserva dos índios uaimiris-atroaris. Não se pensou até agora na opção pela energia eólica ou fotovoltaica para iluminar a cidade.

Bolsonaro visitou o presidente de uma e de outra Guiana. Uma reunião colocou os três frente a frente. O presidente ainda vai à Colômbia e ao Peru, também à Rússia e à Hungria. Sempre haverá chances de construir pontes de entendimento e de comércio.

Mas as novas possibilidades no extremo norte do Brasil constituem a novidade absoluta. E a chance de modificar o destino manifesto daquela região. Resgatar brasileiros e vizinhos da pobreza além de erguer polos de desenvolvimento sem derrubar a floresta. Um detalhe: estive na região de Tiriós há muitos anos. Viajei em avião da FAB carregado de caixas de cerveja para os padres que catequizavam os índios em alemão.

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