A falta de uma elite no Brasil (por Ricardo Guedes)

Elites fortes, com valores definidos, dão rumo a um país. Elites fracas, desprovidas de valores, podem deixar um país ir ao caos

atualizado 14/01/2022 13:07

Andre Borges/Esp. Metrópoles

Aos 20 anos de idade, atendi a seminário em Harvard por iniciativa da Associação Universitária Interamericana. À época, fiquei sobremaneira impressionado em uma recepção que nos foi oferecida, com a presença de empresários, militares, políticos e acadêmicos norte-americanos, algo difícil de se ver por aqui. No Brasil, falta uma elite no sentido anglo-saxão, europeu, e de outros países como China, Japão e Coreia do Sul, que una as elites em um fluxo contínuo de avaliação e orientação do capital político de uma sociedade.

Toynbee, um dos mais importantes historiadores de nossos tempos, utiliza o conceito de “minorias criativas” para explicar o ciclo das civilizações, com conceitos e ações que formam as sociedades. Wright Mills, em A Elite do Poder, refere-se às elites dominantes, o poder econômico como determinante, o militar como garantidor, o político como executor, e o intelectual, representado pelas universidades e imprensa, como moderador das sociedades. No Brasil, há uma significativa disjunção entre esses núcleos, em uma história casuística, com as elites significativamente desconectadas, em sucedâneos de imbróglios e rupturas, sem a formação de uma textura política e social que dê sentido e rumo ao país. Desde a vinda da Coroa Portuguesa para o Brasil, já tivemos o total de 12 moedas circulantes, dos réis e mil réis ao real, passando pelas várias formas de cruzeiros e cruzados, com a inflação hoje acima de 10%, beirando novamente o descontrole.

Phillipe Schmitter, emérito brasilianista, diz que o Brasil é um dos casos mais bem-sucedidos de controle da política e da economia por um grupo dominante, que se mantém no poder há mais de cem anos, com os partidos políticos representando, sob diferentes siglas, os interesses circunstanciais deste grupo. No Brasil, os grupos empresariais, ao longo do tempo, pouco se alteram, amparados na reserva de mercado concedida pelo Estado que dominam.

O Relatório sobre a Qualidade das Elites de 2020 – que compara 32 países, segundo a capacidade inclusiva e distributiva da riqueza, por meio do estudo da tributação e legislação – atribui à elite brasileira a 27ª colocação, atrás de países como China, Portugal, Indonésia, México, Rússia, Índia e Paquistão. Singapura lidera o ranking, seguida de Suíça, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. A elite brasileira não se interessa por um modelo equilibrado de sociedade. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede a qualidade de vida em função bens e serviços, o Brasil encontra-se na 84ª posição, com 0,77; Noruega, em primeiro, apresenta taxa de 0,96. No índice de GINI, onde, quanto maior o índice, maior a concentração de renda, o Brasil situa-se em 53,9; Noruega, em 27,6.

Elites fortes, com valores definidos, dão rumo a um país. Elites fracas, desprovidas de valores, podem deixar um país ir ao caos. Pobre país, ou país pobre, à escolha.

Ricardo Guedes é ph.D. pela Universidade de Chicago e CEO da Sensus