A falta d’água entre os ricos (por Eduardo Fernandez Silva)

Vivemos uma crise hídrica, e tudo indica que outras, mais graves, virão. O que se tem feito para remediar a escassez de algo tão essencial?

atualizado 20/10/2021 3:38

Felipe Menezes/ Metrópoles

A Lei que criou a Política Nacional de Recursos Hídricos – PNRH já tem um quarto de século. Os comitês de bacia hidrográfica são, segundo a Agência Nacional de Águas – ANA, “a instância-chave para o sucesso da Política Nacional de Recursos Hídricos”; hoje, cobrem apenas 39% do território e 84% da população. Sofrem grande dificuldade operacional, cujo principal empecilho, segundo seus membros, é “a baixa prioridade política dos governos”. A mesma ANA aponta aumento dos conflitos pela água: “de 2002 a 2014 a média era de 65 […] por ano, e de 2015 a 2019 […] passou a 254”. Pode-se, pois, questionar a eficácia da PNRH e, pior: se nossos governantes dão baixa prioridade à oferta de água, o que esperar deles?

Enquanto isso, a Califórnia vive em situação de crise hídrica quase permanente. Estado mais rico de um país idem, podemos aprender com eles? Lembrando que eles são ricos e nós não, aqui a urgência no enfrentamento do problema deve ser maior.

Em 2015, o então governador daquele estado impôs uma redução de 25% na captação das 400 agências locais gestoras de água. Muitos gramados morreram, e incentivos foram lançados para os moradores os substituírem por plantas menos sedentas. Em julho último, o governador pediu à população que reduzisse em 15% seu consumo de água. Autoridades não afastam a possibilidade de novas reduções obrigatórias caso a queda voluntária não seja suficiente, e advertem não haver bala de prata para enfrentar o problema.

A cidade de San Diego é tida como exemplo de esforços para a gestão da água. Lá, os moradores são proibidos de molhar seus jardins durante por boa parte do dia, as crianças aprendem canções para motivá-las a conservar o precioso líquido, a transferência de propriedade de imóveis requer certificado da existência de instalações de conservação de água e há um incentivo de US$12,00 por m2 de gramado substituído. Já em 1991, em meio a uma grande seca, a autoridade da água em Los Angeles, que controlava a oferta naquela outra cidade, cortou o suprimento em 30% por mais de um ano. A então próspera indústria local de biotecnologia sofreu com os cortes de água! Investimentos elevados foram feitos, entre eles uma usina de dessalinização de água, ao custo de US$ 1 bilhão. Mas o ponto central é: nas últimas três décadas, o consumo per capita de água no condado de San Diego caiu em mais de 50%!

Com todos os municípios brasileiros carentes de recursos para investimentos semelhantes, como enfrentar as crises hídricas se nossos governantes lhes dão baixa prioridade? Como reduzir o consumo se a lei pretende que vendedores de água assumam a gestão do abastecimento? Algum dos pretensos candidatos já disse algo sobre tema tão grave e urgente?

 

Eduardo Fernandez Silva. Ex-Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados

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