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A crise estética da democracia (por Felipe Sampaio)

A democracia sofre - no mundo e no Brasil - uma nova fase de confrontação estética em uma espécie de guerra sutil

atualizado 31/03/2022 0:44

contra ditadura Fábio Vieira/Metrópoles

É comum associarmos a palavra ‘estética’ a imagens como, por exemplo, um salão de beleza, ou uma clínica de cirurgia plástica (harmonização facial, para ser mais atual).

Nesse sentido, o título deste artigo pode nos passar a falsa impressão de que algum estilo de penteado, ou figurino, característico das democracias, esteja saindo de moda.

Essa redução do significado de estética à dimensão da aparência exterior não é incidental. Favorece o empobrecimento da capacidade da sociedade de avaliar o que é bom, o que é belo e o que é certo.

Por outro lado, compromete-se o reconhecimento do que é ruim, do que é feio e do que é errado. Aquilo que é caro e exclusivo passa a ser classificado como bom e belo. Ao barato e ao popular resta piratear a beleza inalcançável dos bem-nascidos e empoderados, deixando para depois a preocupação com educação, meio ambiente e democracia.

É preciso esclarecer que também há elegância e refinamento na cosmética dos ditadores e das elites que os mantém. As autoridades e os ricaços nazistas, por exemplo, eram vestidos por Hugo Boss e Chanel. Também não faltaram alta costura, carros de luxo e bochechas esticadas nos anos de chumbo do Chile, Argentina e Brasil.

Nada contra produtos de qualidade. Eu mesmo ando pensando em trocar meu velho Renault 2012. No entanto, o sentido original de estética não se resume ao preço ou ao modelo do nosso próximo carro.

Tampouco na política (como vimos no caso das ditaduras bem-vestidas), a análise da estética poderia se restringir a paletós bem cortados. É necessário interpretar as falas, os gestos, as atitudes. É preciso decifrar o belo e o feio, distinguir o certo do errado.

Estética é isso. Segundo os gregos antigos, trata-se de um elemento primordial do pensamento e dos sentidos humanos. A estética, em grande medida, diferencia as pessoas dos demais seres vivos.

Não é à toa que os primeiros alvos dos projetos antidemocráticos são a arte, a cultura, a ciência, a filosofia, a educação, as liberdades (enfim, tudo aquilo que aprimore nossos sentidos e nosso pensamento).

Censurar o recente festival de música, em São Paulo, é um exemplo claro de ataque aos nossos sentidos libertadores. É proibido gritarmos espontaneamente (e gratuitamente) nossas emoções políticas em um show, enquanto é permitido espalhar outdoors de explícita propaganda de políticos pelo País, pagos sabe-se lá por quem e de que maneira.

A estética é o terreno filosófico sobre o qual se constrói o esclarecimento, a descoberta, a surpresa, o deslumbramento. Sendo assim, as expressões culturais, artísticas, políticas e científicas nos permitem crescer como indivíduos e como comunidade.

Por isso, democracia é, antes de qualquer coisa, diversidade ilimitada, sem restrições. Vale tudo (que não fira o Estado de Direito e a saúde do planeta). Como dizia a pedagoga Dosa Monteiro, “Viver é aumentar-se”.

Regimes antidemocráticos, ao contrário, pregam a homogeneidade, que é o rebaixamento de toda a diversidade a um degrau precário, onde as noções de belo, certo e bom sejam igualadas por baixo.

Em um cenário assim, dominado por tons cinza, acordes básicos e discursos rasos, a verdadeira estética (aquela que nos faz sair do nosso lugar usual de conforto), é tratada como infame.

A democracia sofre – no mundo e no Brasil – uma nova fase de confrontação estética. Em uma espécie de guerra sutil, formas de pensamento caduco e agressivo reagem ao avanço dos valores e visões conquistados pela humanidade.

Em 2022, ano de eleições federais e estaduais, para o Legislativo e o Executivo, renova-se a oportunidade de caminharmos para uma Nação soberana, onde prevaleça o belo, o bom e o certo.

 

Felipe Sampaio – Ex-Secretário Executivo de Segurança Urbana do Recife; foi Assessor Especial do Ministro da Defesa (2016-2018); é membro-fundador do Centro Soberania e Clima.

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