A corrupção na antessala (Por João Bosco Rabello)

Prometer combate à corrupção é obrigatório a qualquer governo. Dizer-se imune a ela é enganar

atualizado 25/06/2021 6:36

Vacina indiana Covaxin - Coronavirus - Covid19 David Talukdar/NurPhoto via Getty Images

Com as denúncias de intermediação privada e superfaturamento na aquisição da vacina indiana Covaxin chegando à antessala presidencial, cai o que ainda sustentava precariamente o discurso populista que elegeu o presidente Bolsonaro.

Centrado na negação da política e no desafio das instituições que compõem o Estado, dadas como irreversivelmente corrompidas, a retórica da imunidade moral, refratária à corrupção, não resistiu à crise sanitária negligenciada desde o primeiro momento.

Ainda que seja prematuro definir o grau de participação do presidente, direta ou por omissão, a acusação de que fora alertado para irregularidades no ministério da Saúde são suficientemente graves para que se investigue a versão.

Nesse contexto, o momento reproduz o enredo do mensalão, em que o então deputado Roberto Jefferson, hoje aliado incondicional de Bolsonaro, disse ter alertado o presidente Lula para a mesada parlamentar.

Lula sustentou-se, mas teve de sacrificar seu braço direito, José Dirceu, exonerado e depois condenado com base na figura jurídica do “domínio do fato”, ou seja, por não ser admissível que desconhecesse o esquema criminoso que se desenvolvia em seu entorno.

A acusação ao presidente agora é a mesma, tem o mesmo peso e vem também de um parlamentar aliado, Luís Miranda, o Jefferson da hora. Mais que isso, o deputado tem sua denúncia reforçada pelo irmão, funcionário do ministério da Saúde, formalizada junto ao Ministério Público.

Não é pouco. Pode não chegar ao presidente da República, mas entrou no primeiro escalão de um governo de tal forma centralizado na sua figura que a ele se atribui o comando pessoal de cada pasta. O que reforça a versão de seus acusadores.

Além disso, o episódio agrava uma sangria em curso nos índices de aprovação popular de efeito desestabilizador visível no humor do chefe de governo, que protagoniza episódios públicos de destempero em intervalos cada vez mais curtos.

Bolsonaro chega assim ao terceiro ano de um mandato sem realizações importantes e sem ter o que entregar, além de um discurso ideológico de rara precariedade soterrado por uma gestão fúnebre da pandemia que agora ganha ares sórdidos.

O governo não estava preparado para a conjugação de problemas de magnitude subestimada – e não tem quadros capazes de reverter o cenário.

À crise econômica, que antecede a pandemia, responde com projeções futuras e genéricas, que transformaram o ministro da Economia, Paulo Guedes, em um constrangedor profeta de esquina.

Da condenação da política como meio essencial de governo, para a qual serviu-se do ex-juiz Sérgio Moro, aliou-se ao centrão, a face mais notória de uma política que condenava, não por acaso visto pelo mundo econômico como um centro de custos.

Prometer combate à corrupção é obrigatório a qualquer governo. Dizer-se imune a ela é enganar convertidos e comprar ações futuras no mercado de encrencas.

O cupim já habitava o paraíso e, desde lá, a chave para enfrentar seu poder corrosivo não está no discurso, mas na vigilância permanente.

Uma velha raposa política costumava chocar interlocutores ao defender um índice “saudável” de corrupção de 15%. Não o fazia em público por justificado receio de ser execrado.

Mas sua tese fazia algum sentido: dizia que esse índice só é possível em um governo comprometido em combatê-la. Do contrário, por ser da condição humana, alcança gradativamente o patamar de 40% a 50%, produzindo um Estado paralelo.

Está aí o Rio de Janeiro, das milícias, a confirmar na prática a teoria.

João Bosco Rabello escreve no https://capitalpolitico.com/

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