A conciliação no DNA (Por André Gustavo Stumpf)

Gritar, espernear, xingar apenas reduz o caminho e o prazo para a inevitável derrota

atualizado 20/09/2021 5:52

Jair Bolsonaro em motociata Divulgação

A história do Brasil está repleta de exemplos de negociações e acordos que fizeram a roda da política girar. Para não retornar muito no tempo, no Colégio Eleitoral de 1984, previsto pela legislação de época para escolha do Presidente da República, deveriam concorrer apenas dois candidatos. Um pela oposição e outro representando o governo.

Dentro do partido oficial foi realizada uma prévia que colocou frente a frente Paulo Maluf e Mario Andreazza. O primeiro era um político paulista e outro um coronel, Ministro dos Transportes, que realizou obras importantes no Brasil, entre elas a ponte Rio-Niterói e boa parte da BR 101.

Andreazza era o candidato dos militares, com bom apoio de civis. Mas, não tinha cacoete de político. Montou seu escritório de campanha em Brasília e se lançou na tentativa de conseguir apoio dentro de seu partido, Arena.

Maluf, experiente político, rico e conhecedor dos meandros da política nacional avançou pelos eleitores naquilo que eles têm de mais sensível: o bolso. Distribuiu vantagens e benesses e não teve problemas para vencer seu oponente. O dispositivo militar ficou na obrigação de apoiar Maluf para a presidência da República.

Do outro lado ocorreu uma disputa silenciosa, respeitosa e decidida em longas reuniões madrugada adentro no apartamento do deputado Thales Ramalho (MDB-PE), já falecido. O pessoal gostava de um vinho branco e atravessava a noite falando sobre política. Tancredo Neves participava das reuniões. Ulysses Guimarães também. Havia outros. Mas estes três eram os expoentes daquele momento.

Houve um acordo entre Ulysses Guimarães e Tancredo Neves. Se a eleição fosse direta, o candidato seria Ulysses. Se fosse indireta, por intermédio do Colégio Eleitoral, o candidato seria Tancredo Neves.

A eleição foi indireta. Vale lembrar que o Colégio Eleitoral foi montado com régua e compasso para dar ao governo enorme vantagem. O Palácio do Planalto tinha ampla maioria naquele colegiado. Em tempos normais, não haveria a menor possibilidade de o governo ser derrotado. Mas os tempos, como costuma ocorrer no Brasil, eram anormais.

Cresceu em todo país a maré montante contra Paulo Maluf, tão forte que dentro da Arena surgiu uma dissidência que veio a se chamar Partido da Frente Liberal, (hoje DEM em processo de fusão com o PSL) conduzida por Marco Maciel, José Sarney, Aureliano Chaves, entre outros, que levaram os votos necessários para derrotar o candidato do governo.

Tinha havido a formidável campanha das diretas já, cuja emenda constitucional não alcançou o quórum mínimo de votos para autorizar a mudança na maneira de eleger o presidente da República do Brasil. Houve a desmobilização de todas as correntes políticas que se uniram naqueles comícios gigantescos.

Os líderes de oposição não atacaram, insultaram, xingaram, nem ameaçaram virar a mesa. Tranquilos, conversaram em torno do vinho branco e somaram apoios, inclusive dos militares, porque boa parte deles não queria eleger Paulo Maluf.

Tancredo Neves morreu negando que tenha conversado com Valter Pires, o duro ministro do Exército, na época. Mas conversou, sim. Acertou os limites de sua democracia. Depois de vencer, deu volta ao mundo para manter contato com os principais líderes internacionais. E com jornalistas. Tive uma longa conversa com ele, na embaixada do Brasil em Washington.

É uma pena que os generais de alta patente que cercam o presidente Bolsonaro não consultem os alfarrábios da história do Brasil. A conciliação é base da política nacional desde o Império. Todos aqueles que radicalizaram na cena política foram miseravelmente derrotados.

Tancredo e sua turma retiraram os militares do poder sem dar um tiro. Nem proferir um único discurso ofensivo. O mineiro, bom de conversa, infelizmente morreu antes de tomar posse. Quem assumiu o poder foi José Sarney, ex-presidente da Arena, que aderiu ao MDB e chegou ao Palácio do Planalto como oposição ao governo que pertenceu. Tudo por acordo.

Os assessores do presidente Bolsonaro precisam soprar no ouvido do chefe que gritar, espernear, xingar apenas reduz o caminho e o prazo para a inevitável derrota. Michel Temer, grande missivista, experiente político, várias vezes presidente do MDB, reapareceu na cena política em nome da conciliação.

Bolsonaro se viu sem apoio, sob a ameaça de perder o mandato e ver seu filho ser preso. Recuou para não cair. Os acordos costumam ser muito eficientes no Brasil. Ninguém se atreve a descumpri-los, porque as condições anteriores continuam em vigor.

André Gustavo Stumpf escreve em https://capitalpolitico.com/

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