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A chapa Lula e Alckmin (por Ricardo Guedes)

A aproximação de Lula e Alckmin é um movimento genuíno, calcado na aproximação dos opostos dos últimos quase 20 anos da política nacional

atualizado 21/01/2022 9:17

Ricardo Stuckert/Divulgação

A possível formação da chapa Lula e Alckmin é um fenômeno genuíno em nossa política atual, certamente já com algum desgaste. Eleitoralmente, é difícil se saber, no momento, se a chapa adicionaria votos ou adicionaria rejeições. Em geral, em 95% dos casos o vice mais atrapalha do que soma, em 4% empata, e em 1% ajuda. Esta é a lógica detectada ao longo das pesquisas Sensus, em chapas de composição. Os indicativos, entretanto, são de que poderá funcionar.

Um caso clássico de composição bem sucedida foi a chapa Lula e José Alencar. Politicamente, Lula representa a ala reivindicatória do movimento sindicalista paulista, tendo participado como candidato à Presidente em três eleições: em 1989 com Ulisses Guimarães e Brizola nos extremos, e eleição de Collor no 2º turno, Lula em segundo lugar; em 1994 com a eleição de Fernando Henrique no 1º turno, Lula em segundo lugar; em 1998 com a reeleição de Fernando Henrique no 1º turno, Lula em segundo com votação crescente. Por outro lado, José Alencar representava significativa parcela do empresariado de Minas Gerais, Estado de tradição de mediação política, eleito Senador por Minas em 1998. A junção de Lula e José Alencar, e a Carta ao Povo Brasileiro de 2002 reafirmando o compromisso com a democracia e a economia de mercado, na presença de relativo esgotamento do paradigma do PSDB após 8 anos de Fernando Henrique, deram a Lula a vitória sobre Serra em 2º turno.

Nas eleições deste ano de 2022, há o consenso da grande maioria do eleitorado da necessidade de Bolsonaro não se reeleger. Isto está manifesto nas pesquisas eleitorais através da forte intenção de votos em Lula, e por parte do eleitorado na tentativa de surgimento de uma 3ª via que pudesse representar uma alternativa a Lula e Bolsonaro. A possibilidade de uma 3ª via, entretanto, continua exígua, posto as avaliações positivas do governo Lula de 2003 a 2010, e à baixa representatividade dos candidatos da 3ª via, na ausência de projetos. A aproximação de Lula e Alckmin, institucionalizada no jantar na Rubaiyat, palco de tantos congraçamentos e de decisões políticas em São Paulo e do país, é um movimento genuíno, calcado na aproximação dos opostos dos últimos quase 20 anos da política nacional em anteposição à Bolsonaro, hoje considerado como um ponto fora da curva da história política brasileira.

Pode ser que a chapa Lula e Alckmin não se concretize. Mas constitui-se em maestria política, por ambos os lados, no estendimento da centro-esquerda sobre o mais ao centro, no maior impedimento à Bolsonaro, e também à 3ª via. Se a chapa Lula e Alckmin não se concretizar, por dificuldades internas nos partidos e outros fatores, fica o legado político, único em nossos dias, da possibilidade do apoio mútuo no que seria hoje a forte candidatura de Alckmin ao Governo do Estado de São Paulo, e a forte candidatura de Lula à Presidência da República. Água que corre límpida.

Ricardo Guedes é Ph.D. pela Universidade de Chicago e CEO da Sensus

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