A bandeira e o povo (por Cristovam Buarque)

Bolsonaro e seu grupo usam e abusam da bandeira do Brasil como se fosse deles e esquecem que elas simbolizam a realidade do país de todos

atualizado 16/10/2021 3:13

Apoiadores do governo bolsonaro chegam a área reservada na Solenidade Cívica de Hasteamento da Bandeira em brasilia 3 Igo Estrela/Metrópoles

As forças progressistas no poder entre 1992 e 2018 mostravam mais as bandeiras de seus partidos do que a bandeira nacional; a partir de 2019, as forças conservadoras se apropriaram dos símbolos nacionais como se fossem propriedade de seus partidos. O atual presidente e seu grupo ideológico que usam e abusam da bandeira do Brasil como se fosse deles e esquecem que elas simbolizam a realidade do país de todos.

Para os que se formaram na academia do presidente, a bandeira é o país deles, brancos, ricos, heterosexuais, cristãos, e não o símbolo de uma nação com povo, natureza, história, futuro. Tratam a Amazônia como território, não como floresta e água; não respeitam nossos índios como parte do Brasil; não aprenderam que o Brasil real tem diversidade étnica, sexual, religiosa. Não levam em conta que os milhões de pobres, inclusive com fome, são também parte representada por nossa bandeira.

Na escola que o presidente se formou, a bandeira é o país de poucos, ela prescinde do povo brasileiro em toda sua diversidade. Pena que na academia em que o presidente se formou, a bandeira verde e amarela não seja o símbolo da alma do Brasil, seu povo, cuja permanência vem de suas crianças e da educação que elas receberão.

Defendem gastar bilhões para fazer submarinos que defenderão o petróleo do Pré-Sal enterrado no fundo do oceano, mas não defendem o uso dos recursos necessários para desenvolver o potencial de cada criança ao longo da educação pré-escolar e básica. Elaboram estratégias militares para ocupar o solo onde estão nossos rios e florestas, mas fecham os olhos e até promovem e louvam a destruição da natureza, desde que o território continue fazendo parte do mapa. Tampouco entendem que a bandeira que orgulha nas quadras de esporte deve também orgulhar nos podiums do saber: das artes, da ciência e da tecnologia. Até porque, daqui para frente, as guerras se farão mais por cientistas do que por soldados.

Deveriam entender que a bandeira é a representação do Brasil de todos e defender as transformações e revoluções necessárias para que o Brasil seja de todos e para todos, sem concentração de propriedade e renda, sem condenação de milhões à pobreza; sem deixar para trás os cérebros por falta de educação.

É preciso romper com a ignorância de ver a bandeira como a realidade e não como símbolo da realidade de todos nós, o Brasil de florestas, rios, negros, brancos, índios, muçulmanos, judeus, cristãos de todas as denominações, ateus, todos somos parte da realidade que a bandeira simboliza.

Cristovam Buarque foi senador, governador e ministro