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47 dias para a eleição (por Mirian Guaraciaba)

Nervosos, frenéticos e extremados

atualizado 16/08/2022 22:44

Mão de mulher negra inserindo cédula de papel com voto em urna Getty Images

Começa hoje a campanha eleitoral. Nunca, em tempo algum, estivemos numa enrascada tão espinhosa. A dois ou três meses das eleições, parecia ao Brasil que nos livraríamos com certa margem segurança do fascinazismo avizinhado na eleição de Bolsonaro, em 2018. Hoje, pesquisas recentes apontam caminhos muito mais penosos, arriscados.

A farta distribuição de dinheiro público aos mais ou menos necessitados, e a poderosa armadilha montada e aperfeiçoada desde 2018 pelos bolsonaristas nas redes sociais premem nossas previsões, podem nos levar a um dramático desfecho. Confesso, tenho medo. O que seria de nós num segundo mandato desse insano?

As pesquisas oficiais não chegaram a números alarmantes, mas há sinais claros de que a diferença entre Lula e Bolsonaro já foi mais confortável para o ex-Presidente. O Balaio do Kotsho, blog assinado pelo jornalista Ricardo Kotsho, conta no UOL que “um dos mais respeitados pesquisadores do mercado eleitoral disse em off que a chance de Lula ganhar em primeiro turno caiu de 30 para 6%”.

Razões diversas: o orçamento secreto de mais de R$ 400 bilhões, partilhado país afora em bondades eleitorais, a ofensiva junto aos evangélicos, com a ajuda da igrejeira Michelle, e eleitores arrependidos que “não encontraram na terceira via um candidato competititvo”.

Maus presságios. O cenário vem se tornando conveniente para Bolsonaro enquanto a extrema direita prolifera no mundo, retirando de seus cidadãos direitos conquistados a duríssimas penas, muitas vezes com sangue e a perda da liberdade. As democracias correm perigo. Líquido e certo.

O The Economist Intelligence Unit, em sua edição de 2022, constatou que menos de 10% da população mundial vive em regimes plenamente democráticos. Exatos 8,2%. Foram pesquisados 167 países, e o Brasil não foi incluido na categoria de “democracia p lena”.

Bolsonaro tem ditadores e sanguinários como exemplos de bons mandatários. O ministro da Hungria, Victor Orban, um de seus preferidos, depois de Trump. Orban está no poder há 12 anos. Trocou dezenas de juízes das cortes, em todas as instâncias, fechou jornais independentes e mandou reescrever a história do País nos livros escolares.

Orban foi um dos poucos líderes europeus presentes à posse de Bolsonaro. Em abril do mesmo ano, recebeu a visita de Eduardo Bolsonaro, em Budapeste. Época em que 03, depois saber fritar hambúrgueres em lanchonetes americanas, se viu apto a ser embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Muitas semelhanças traem a democracia brasileira. Elio Gaspari, em O Globo, de domingo, precisou o momento em que, mais uma vez, Bolsonaro conta sua versão do golpe de 64. O Capitão distorce fatos, enaltece torturadores, e não economiza tempo, nem palavras, para destruir nossa jovem democracia.

Lutemos por ela. Mas não bastam cartas e notas – extremamente importantes, sem dúvida – temos que fazer mais. Enquanto ficamos preocupados em preservá-la (devemos fazê-lo com sangue, se necessário for), bolsonaristas entregam-se a estratégias potentes.

Vale ler na edição de agosto da Revista Piaui a brilhante reportagem de Ana Clara Costa: “A Jovem Pan e o golpe: como a emissora tornou-se o braço mais estridente do bolsonarismo”. Outros braços se estenderam . É de arrepiar.

Confesso, tenho medo do que está por vir. Bolsonaristas se organizam, são espertos nas mídias sociais, não medirão esforços em espalhar fakenews atacando o ex-Presidente. Já coalharam as redes com a mentira deslavada de que Lula mandaria fechar igrejas, caso eleito.

Só não quero ter medo de fazer campanha pró-Lula. Quantas campanhas fizemos nas ruas, nos carros, nas camisetas, desde as Diteas já”? Outra era. Outro ciclo. Hoje, vivemos condições atmosféricas adversas: tempos em que se mata covardemente por fan atismo, e não ideologia. Tempos de desassossego, angústia. Bolsonaristas estão à solta, dispostos a tudo para eleger o Capitão que tanto mal fez ao País em quatro anos. Imaginemos oito anos. Que desgraça.

Amanhã, 16 de agosto, começaremos a contagem regressiva para o 2 de outubro, um grande dia. É preciso, e contamos com isso, que o sistema judiciário esteja absolutamente atento, e as policias atuem ao menor sinal de desordem. No dia D, evitar o caos será a garantia do resultado das eleições.

Até lá, serão 47 dias. Muita cisma, agonia, angústia. E muito Rivotril.

Mirian Guaraciaba é jornalista

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