*

Quem passa pelas vitrines da loja Hill House, no Casa Park, percebe uma instalação diferente. Tudo bem minimalista, móveis de pés bem fininhos assinados por um estúdio de nome estranho. ,ovo. Assim, com vírgula mesmo. Parceiros desde os tempos de faculdade, Luciana Martins e Gerson de Oliveira se desiludiram com o cinema durante o governo Collor, com a extinção da Embrafilme e da Fundação do Cinema Brasileiro. Resolveram procurar algo diferente.

“Teve uma necessidade prática, não queríamos trabalhar com cinema. Queríamos trabalhar com arte, ganhar dinheiro e sair de casa”, lembra Luciana. Um acaso os colocou em uma oficina de escultura em metal e a dupla saiu encantada com o processo de manipular materiais, transformar, dar vida às ideias. A resposta foi muito rápida: os primeiros objetos já deram certo, e os dois começaram a vender em uma loja em São Paulo. “Serviu de estímulo para a gente continuar”, conta.

Os dois trabalharam com design por um tempo e assinaram projetos com seus próprios nomes antes de decidir por uma marca para o estúdio. Daí vem a vírgula: a pontuação garante que a frase já vinha acontecendo antes daquele momento, assim como o mobiliário de Luciana e Gerson, que já existia antes do ,ovo. E a palavra curta, simples, com potência e um toque de humor definiu bem os valores que a dupla queria transmitir com seu design.

O desenho também tem uma relação importante com as palavras. Para a dupla, o que diferencia uma peça de design é a intenção por trás, assim como a capacidade de comunicar e despertar algo no cliente. O nome do projeto também é importante porque acrescenta uma camada a mais de significado ao produto.

Olhando os móveis arrojados, de linhas simples, é fácil perceber que os trabalhos do estúdio ,ovo têm tudo a ver com Brasília. Há uma relação com a arquitetura da cidade e até uma identificação com o paisagismo de Burle Marx. “O modernismo e a arquitetura moderna brasileira não são fontes de inspiração direta, mas partes muito importantes do nosso repertório”, explica Gerson.

Tudo no estúdio é feito a dois: se um começa a pensar em um desenho, o outro já dá uma ideia. Nada passa à frente se Luciana e Gerson não estiverem de acordo. Eles brigam muitas vezes por dia. Mas para ela, talvez por isso, a parceria funcione tão bem.

E, apesar do design de mobiliário brasileiro estar muito ligado ao uso da madeira, Luciana e Gerson consideram que o trabalho dos dois não mostra a herança de grandes artistas, como Sérgio Rodrigues, de maneira tão explícita como costuma aparecer na mídia. Para a dupla, os novos designers brasileiros estão produzindo peças cada vez mais inovadoras.

Exposição de arte também compõe a loja
Eles desembarcaram em Brasília na última terça-feira (6/9) para comemorar o lançamento da nova coleção na Hill House. E também fizeram parte de uma mesa-redonda ao lado do artista plástico mineiro Miguel Simão.

Miguel é professor da Universidade de Brasília e dispôs na loja 49 peças de 10 coleções inéditas de objetos em bronze, fibra de vidro, resina e madeira. Alguns desenhos também compõem os ambientes, e o objetivo era dispô-los como se estivessem em casa.

O artista, que comemorou 25 anos de carreira com uma exposição solo no Museu Nacional da República no começo do ano, contou durante o bate-papo que ficou muito feliz com o convite para expor em uma loja de decoração, onde suas peças poderão ser apreciadas por outro tipo de público.
Miguel afirmou que, apesar da casa nova, as obras não perdem sua identidade — continuam sendo arte mesmo estando em um contexto de design e decoração. “A carga poética não se perde, ainda que ganhe função de adorno. Este é um bom desafio”, completa.


COMENTE

 
decoraçãodesignmobiliário