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Antônio Oliveira é um homem apaixonado. Dono de uma memória ímpar, começou a rascunhar os primeiros poemas aos onze anos. Coisa de menino. Na adolescência conheceu as obras de Jorge Amado e de Érico Veríssimo por indicação de uma amiga — que se tornaria sua mulher, anos depois. Ali viu um mundo se abrir. Descobriu que há poesia em tudo, basta olhar a vida da maneira certa.

Aos 18 anos, se encantou por uma desconhecida. Ela caminhava com o filho pela quadra vizinha e Antônio acordava cedinho para vê-la passar. Depois escrevia um sem-fim de poemas com destino certo. Mas a timidez impediu as palavras de ganharem o mundo – elas ficavam trancadas dentro de sacos e mais sacos de plástico. O romance nunca foi para frente. Mas a experiência lhe mostrou que era bom mesmo colocar os sentimentos no papel.

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Quando meus filhos nasceram, a veia poética explodiu — se é que eu tenho uma"

Inspirado pelas suas crianças, a produção se intensificou. O primeiro filho, Renato, cresceu com os versos do pai. “Eu senti todas as sensações do mundo quando ele nasceu. É um clichê, mas é um ato de coragem.”

Para cada ano de vida, um poema. Para cada dia marcante, um relato emocionado de Antônio preenchia os papéis. Quando o pequeno se formou no Jardim III, o pai produziu duas poesias. Elas ficaram tão lindas que a diretora resolveu estampá-las na agenda de todos os alunos no ano seguinte.

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Renato ganhou poemas anuais até os 20 e poucos anos. Quando foi morar fora do país, mandou uma mensagem para o pai. O SMS virou verso (veja na galeria). No aniversário de trinta anos, recebeu rimas de três páginas. De lá para cá (hoje ele tem 36), a frequência tem sido menor, mas por uma boa causa: Heitor. O primeiro neto de Antônio, mal fez dois anos e já tem nove poemas do avô-poeta.

Mas a flor dos olhos do professor é a caçula, Tânia. Ele se revela, no fim das contas, um apaixonado pelas mulheres. Antes do aniversário de dois anos da filha, ele se divorciou da mãe das crianças. “Tive muito receio de perdê-la. De não acompanhar o crescimento. Era uma saudade infinda”, lembra. “Mas a gente foi se encontrando, inventando histórias, personagens.”

Assim como escreveu poemas para Renato em todos os aniversários, fez o mesmo por Tânia. E ainda faz, apesar de estar devendo o registro dos 28 anos, completados em março. A filha cobra, e logo a inspiração vem. As experiências na escola, quando pegou catapora, as fofocas de adolescente, a venda do primeiro carro. Um especial para os 15 anos. “E se ela me pedisse o que não existisse/ eu inventava e entregava para a minha princesa”, dizia.

Antônio se fez presente e diz ser uma pessoa de “muita sorte” por ter os filhos que tem. Eles podiam não dar a menor bola para os sentimentos espalhados em papéis, mas é o contrário. Os dois gostam, guardam, esperam e cobram.

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O professor aposentado nunca viveu de escrever. Por isso, acredita não ter um processo produtivo — não senta e pensa em versos alexandrinos. Quando a emoção chega à garganta ou a poesia aparece no cotidiano, é “folha de papel almaço pautado”. Às vezes, nem ele mesmo acredita que escreveu rimas tão boas, que emocionam os amigos e a família e, vez ou outra, arrancam lágrimas do leitor. “Vida sem arte não é nada.”

Vale uma existência/ Aquele instante eu e a minha filha/ Inesquecível experiência/ A própria maravilha.
O nosso abraço emocionado/ De duas pessoas que se amam/ O retrato do amor sincero, puro e sagrado/ De seres que não se enganam.
Nem sei porque não chorei/ Tão feliz eu estava/ Eu somente sei/ Que por mim, aquele abraço não terminava.
Aquele belo sorriso/ Naquele lindo rostinho amado/ Do que mais eu preciso/ Para ser um privilegiado?
Deixei a escolinha/ Vivendo aquele momento/ Abraçava você, Taninha/ Ao abraçar o vento

Escrito em cinco de setembro de 1999



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