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Por Naiara Leão

Nas manhãs de quarta-feira, Christina Thomton e mais três voluntárias escrevem cartas. Não para alguém que elas conheçam. Mas para qualquer pessoa que queira uma ajudinha para encarar o papel. Elas são as Doras do Escreve Cartas, programa do Governo de São Paulo, inspirado na personagem de Fernanda Montenegro no filme Central do Brasil.

Diferentemente da Dora de Walter Salles, que vivia do ofício oferecido numa estação de trens, as Doras do Escreve Cartas são mais de 200 voluntárias e voluntários do programa que oferece redação e envio gratuito de correspondências. Christina atua no Poupatempo (local onde é oferecido atendimento para vários serviços públicos, equivalente ao Na Hora, no DF) de Santo Amaro, na cidade de São Paulo. E em tempos de Whatsapp o que ela menos escreve são… cartas.

“Hoje em dia isso aqui substituiu a carta”, diz Christina apontando para o celular.

São cerca de 10 pedidos do tipo por semana. E se os voluntários do Escreve Cartas já não escrevem tantas cartas, o que é que eles escrevem então? Formulários, declarações, contratos, cartões de visita e, na maioria das vezes, e currículos. “Vemos muitas histórias de pessoas em situação difícil. Elas precisam ser ajudadas e, muitas vezes um trabalho resolve”, afirma.

Apesar da aparência fofa do ofício – que eles chamam de escrevedor – o tipo de carta mais pedido é de um tipo bem duro. “O que a gente mais faz é escrever carta para prisão. É um dado triste”, constata Christina.

[Para escrever cartas para presos] vêm mães, pessoas extremamente simples e contam seu dia a dia. Mandam a carta com um monte de corações, beijos e abraços e contam como está todo mundo na família, que em geral são filhos pequenos"
Christina Thomton

Os causos familiares predominam nas cartas para quem está preso. Se o assunto fica meio estranho, as voluntárias intervêm. “Por exemplo, perguntas como ‘o seu amigo já depositou o dinheiro pra gente’, não dá né? Não sabemos se está ligado a alguma atividade criminosa e sabemos que pode ser interceptado [as cartas são lidas por agentes penitenciários antes de serem entregues]. Aconselhamos a mudar o tom, falar da família”, explica Christina. Outra particularidade das cartas para detentos é que são sempre escritas à mão. Na maioria dos presídios, só é permitida a entrada de cartas escritas dessa forma.

A partir de novembro, as mais pedidas passam a ser de outro tipo, com “histórias mais bonitas”. São as cartinhas para o Papai Noel, escritas para o programa dos Correios que incentiva pessoas a adotarem cartas de crianças e enviarem seus presentes. Às vezes, o Papai Noel surge já na hora da redação.

“Teve um Natal em que uma colega recebeu uma mãe com um menino que queria escrever para o Papai Noel pedindo um panetone. Ela escreveu do jeito da criança: ‘Querido Papai Noel, sou muito aplicado na escola e quero um panetone’. E depois perguntou: ‘Você não quer mais alguma coisa? Do que você gosta?” E o menino respondeu que gostava de jogar bola, mas queria mesmo o panetone porque a família dele não conhecia aquilo e ele tinha vontade de comer porque as pessoas dizem que é muito gostoso. Nessa hora, dá vontade de você sair correndo, comprar o panetone na loja aqui da esquina e trazer. Mas o que a voluntária fez? Não mandou a carta, mas ela mesma comprou o panetone, uma bola e mais alguma coisa, colocou num pacote e aí levou para os Correios para mandar.”

Nós não podemos demonstrar nada, mas tem ocasiões em que gostaríamos de simplesmente sair, comprar o que a pessoa precisa e falar: ‘Toma’"
Christina Thomton

Ajuda, Luciano!
Outro hit do Escreve Cartas são os pedidos de doação para apresentadores de programas de TV. Rodrigo Faro e Ratinho são os mais procurados. Luciano Huck já teve dias mais populares. “Anotamos sempre as solicitações em um caderno e não tenho visto mais o nome dele”, entrega Christina.

Para ajudar seus remetentes a de destacarem entre milhares de pedidos, as voluntárias lançam mão de seus melhores recursos como redatoras. “A gente tenta escrever de forma que o conteúdo chame atenção de assessoria desse apresentador. Se eu escrever ‘sou Ana Maria, estou numa situação difícil e preciso consertar o telhado porque está chovendo dentro de casa’, é só mais uma carta. Mas aí vamos perguntando quem a pessoa é, há quanto tempo está aqui [na cidade de São Paulo, o que faz da vida. Porque são sempre histórias que comovem ou curiosas. O importante é escrever isso. Às vezes, as pessoas acham que sua história de vida é comum, banal, que não é interessante. E a gente vai ajudando nessa construção.”

“Se a gente para pra realmente ouvir a pessoa e entender o que ela precisa, não tem segredo”, diz a voluntária Lígia Machado.

Quer ler a história completa? Acesse o Projeto Lupa e veja o texto na íntegra.

O Projeto Lupa reúne depoimentos e fotos de profissionais ligados à arte de contar histórias. O site apresenta escritores, jornalistas, roteiristas, contadores de histórias, dramaturgos, redatores publicitários, letristas musicais, que têm algo em comum: a paixão pelas palavras.



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