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Adultos e crianças compartilhavam a paixão pelo vinil nas décadas de 1970 e 1980. O som na vitrola tornava os domingos mais tranquilos e as festinhas infantis mais animadas, caso houvesse um bom aparelho de som e uma agulha sempre limpa.

Parte da graça era procurar, nas lojas especializadas, novos álbuns e LPs raros. Os pontos de venda ficavam lotados de pessoas que conversavam e dividiam conhecimento musical. Eram outros tempos.

Nas últimas décadas, com o surgimento dos cds, do download ilegal e agora do streaming, as lojas físicas perderam o sentido. Aos poucos, cada um dos endereços que fizeram parte da vida de gerações de brasileiros desapareceu.

Mas em Brasília, a Discodil resiste e busca manter o encanto de outrora. Em maio de 2017, a marca completa 50 anos e ainda funciona — mesmo em tempos de crise e com mídias cada vez mais compactas.

Quem trabalha há muito tempo nos dois endereços da loja sente falta da nostalgia de como a música era consumida pelos clientes, mas garante que ainda há movimento.

Felipe Menezes/Metrópoles
Felipe Menezes/Metrópoles

Márcio Julio de Oliveira, gerente da Discodil há 21 anos

 

Laurindo Modesto Pereira, fundador e proprietário, pensou em toda a concepção da loja no final da década de 1960 quando comprava discos e os revendia na rua. Com o tempo, o negócio ganhou forma e ele abriu uma pequena loja no Núcleo Bandeirante, depois partiu para a W3 Sul e aos poucos se expandiu por sete endereços diferentes no DF — só no Conjunto Nacional funcionavam três lojas entre as décadas de 1970 e 1980.

Hoje, aos 77 anos, administra apenas dois espaços  — um no Conjunto Nacional e outro, em Taguatinga — com a ajuda de sua mulher Cassiele Pereira. Reservado, ele prefere deixar os funcionários de longa data darem o parecer sobre o empreendimento que vende CDs, DVDs, Blu-Rays e instrumentos musicais a preços mais acessíveis.

Márcio Júlio de Oliveira, gerente da unidade do centro comercial há 21 anos, recorda que a época de ouro da Discodil durou até o final da década de 1990.

Quando a internet se popularizou, as vendas começaram a baixar. Foram caindo até o ponto de vermos nossos concorrentes fecharem suas lojas. Mas nós escolhemos lutar para continuarmos no mercado, sempre negociando com os fornecedores e gravadoras para trazer um preço bom."
Márcio Julio, lojista

Quem ainda trabalha na Discodil garante: a maioria dos clientes tem mais de 40 anos e apego emocional à loja. Mas também aparecem por lá consumidores de música na internet que gostam de ter o CD físico em casa. Os campeões de venda Wesley Safadão, Zeca Pagodinho e Ivete Sangalo competem lado a lado com as maiores sensações do sertanejo — gênero mais procurado na loja.

Mas os funcionários mais antigos sentem falta de quando as pessoas paravam para prestar atenção ao que estavam ouvindo e relembram com carinho das antigas cabines, retiradas para abrir espaço ao estoque de DVDs.

“Quando chegava um LP do Roberto Carlos, todo mundo fazia hora extra para preparar a loja para receber os clientes no dia do lançamento do disco. Quando abríamos a porta era um tumulto tão bom. O bolachão era um objeto de desejo, tinha aquela sensação de pegar, ler as letras, ver a foto grande dos artistas, mostrar para os amigos que tinha uma coleção. Infelizmente isso não existe mais”, lamenta o gerente.

Felipe Menezes/Metrópoles

Cassiele, esposa do proprietário, compartilha da mesma saudade. Ela frequentava a Discodil de Taguatinga e não se esquece quando foi comprar um disco da apresentadora Angélica — na época, o single “Vou de Táxi” fazia sucesso nas rádios. “Não posso dizer com certeza se conheci o Laurindo naquela vez, mas sei que ele já olhava para mim”, brinca.

Para manter o mesmo clima antigo, o lojista nunca mudou a fachada da loja. “Até hoje tem escrito ‘Discos, Fitas e Gravadores’ e nós nem vendemos mais isso. Mas meu marido não quer mudar nada. Acho que gosta de relembrar como era naquela época”, avalia Cassiele.

Hoje os amantes de música montam suas próprias playlists e selecionam suas preferências musicais com um clique no celular. Mas Márcio diz que a Discodil ainda tem papel na cena brasiliense: o de relembrar tempos mais simples nos quais você poderia levar a família para ouvir música e escutar um disco na sua totalidade, não em fragmentos.

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