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Se o maior desejo do mago Gargamel é destruir todos os Smurfs, tomara que ele nunca passe pelo Distrito Federal. Ali no Guará, em uma impecável estante branca, 815 representantes dos pequenos seres azuis convivem seguros das artimanhas espinhosas do vilão.

Aos cuidados do revisor de textos Pablo Vilela, de 38 anos, os bonequinhos fazem parte da maior coleção no país dedicada aos personagens. Desde 2008, Vilela faz essa compilação, que começou ao acaso, a partir de suas lembranças de infância. “Quem tem mais de 30 anos, assistia ao desenho. Eu acompanhava mesmo, era um dos meus preferidos. Em 2008, em um daqueles e-mails que a gente recebe do tipo ‘recordações dos anos 1980’, acabei vendo esses bonecos”, conta.

Colecionista — “Já tive mais de 1500 chaveiros, juntei tampinhas de garrafa, latinhas” —, ele se interessou pelo produto e decidiu procurar mais sobre os bonequinhos em PVC feitos pela empresa alemã Schleich e inspirados na criação do belga Peyo. “Por acaso, os encontrei em um site de leilões e vi que, desde a década de 1970, uma nova linha é lançada todos os anos.”

Aquilo despertou nele a avidez de qualquer colecionador. O início foi tímido. Evitando gastos mais altos, ele participava de leilões pequenos, nos quais encontrava 10, 15 peças no máximo. “Em 2010, achei um lote com 200 Smurfs, de um cara que estava se desfazendo da própria coleção. Pensei: dá para comprar. Custava um dólar cada um em uma época na qual a moeda estava um para dois com o real. Foi quando a coisa cresceu de verdade e eu nem tinha mais onde pôr”.

A brincadeira ficou séria e até mesmo um armário precisou ser construído para garantir a segurança dos azuizinhos. Agora, todos os anos, ele compra os novos lançamentos. Gargamel não imaginava que seus grandes inimigos teriam um aliado tão ferrenho no Planalto Central.

Vantagens do colecionismo
Vilela é casado e tem um filho de 5 meses, César. O armário com sua coleção foi montado no quarto do pequeno. Como o colecionismo é quase um hobby hereditário, ele espera que o garoto também se apaixone pela prática. “Meu avô colecionava corujas. A casa dele era apinhada delas de fora a fora. Meu pai, quebra-cabeças e casinhas. Ele tem uma estante com centenas, de todos os lugares do mundo.”

O revisor acredita que o rebento tem muito a aprender. “Isso trabalha muitos valores na gente. Falar que ele tem, no quarto, uma coleção com 800 bonecos e mostrar que não são brinquedos fará com que o César aprenda mais sobre o espaço dele, sobre o que pode e o que não pode fazer e que na vida existem limites”, exemplificou.

Entre os benefícios para si mesmo, ele lista o quanto a atividade exercita seu olhar minucioso, indispensável para um bom revisor. Além disso, ele fez amigos. “Há dois grupos grandes de colecionadores de Smurfs no Facebook no mundo inteiro e a gente conversa entre si. Também fiz um grande amigo em Portugal”. Mas, claro, a diversão tem seu preço. “Devo ter gastado alguns milhares de reais. Mas parei de contar porque pode ser doloroso”, garante, rindo.

Mesmo assim, ele não descarta começar tudo novamente, com outro tema. Tudo vai depender de César. “O problema de começar uma nova coleção é espaço. Eu teria que me desfazer dessa para começar uma nova e isso não vou fazer. Até porque, como ela continua, todo ano tenho uma nova motivação. Só imagino outra se o meu filho se interessar por ser colecionista.”

Smurf viajante
O hobby de Pablo Vilela não fica restrito ao seu armário. Sempre que viaja, o revisor leva um dos seus bonecos e, em belas fotos, registra os lugares do mundo que visita sempre com a presença do companheiro azul. Confira alguns lugares que eles visitaram:

Os Smurfs
A primeira aparição dos Smurfs se deu em 1958, em uma história em quadrinhos belga. Criados por Pierre Culliford, conhecido pelo seu nome artístico, Peyo, os  azuis são uma instituição na Bélgica.

O desenho animado, pelos estúdios Hanna-Barbera, foi lançado em 1981. Hoje, a marca se expande por blockbusters de Hollywood, brinquedos e até mesmo um parque temático, fundado em 2015 na cidade catalã de Lleida.



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