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Foi pela TV que Mahmoud Abdul Rahman, de 29 anos, viu o Brasil pela primeira vez. “Preciso ir para esse país”, pensou. Terminada a Copa do Mundo de 2014, ainda na ressaca do 7×1, desembarcou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.

Era 11 de novembro de 2014, data em que iniciava seu novo recomeço. Do português bom, mas ainda claudicante, um adjetivo é dito tantas vezes que quase soa como nativo: “É tudo lindo aqui”.

Este mês, Mahmoud completou dois anos no Brasil. Do dia em que chegou do Gana, seu país Natal, a São Paulo, andando de terminal em terminal com o transporte gratuito do aeroporto atrás de alguém que o ajudasse com alguma informação, criou um portfólio de referências que vai além da nova língua, a sexta do seu repertório — ele fala quatro línguas africanas, além do inglês.

Antes da entrevista, disse que até uma nova mãe entrou para o seu coração: a dona do restaurante onde trabalha como aprendiz, na Asa Sul, o Universal Diner, é tão amada quanto a que ele deixou aos cuidados dos quatro irmãos na África, confessou, com os olhos marejados.

Mahmoud hoje é um dos 8,8 mil refugiados que vivem no Brasil, segundo o Comitê Nacional para Refugiados do Itamaraty (Conare). Embora seja funcionário exemplar no restaurante — passou de ajudante de serviços gerais a atendimento ao público em tempo recorde –, é com as linhas e cores que Mahmoud tem mais intimidade. Aprendeu com um tio a arte do bordado, que imprime com maestria em batas e vestidos.

As cores, os desenhos, os recortes e acabamentos, tudo é obra do seu talento. A “Mahmoud Design”, como ele chamou sua marca, fazia até algum sucesso na sua cidade, mas não o suficiente para permitir que sonhasse alto. Quando chegou aqui, queria aprender novas profissões. “Eu coloquei na minha cabeça que queria melhorar de vida. Aprender coisas diferentes”, conta.

 

Saudade
Foi um amigo, também africano, quem o arranjou o primeiro emprego, em uma empresa de decoração de eventos. Achou tudo “lindo”. “A gente arrumava o lugar e ficava muito lindo. Um dia eu quero ter uma empresa assim, quero abrir o meu negócio”, planeja.

Há alguns meses, fez uma visita não programada a Gana para visitar a família. Um dos irmãos lhe disse que a mãe estava muito doente e que ele deveria visitá-la. Sem dinheiro para a viagem, ganhou de presente da patroa as passagens e o dinheiro. Lá, descobriu que a mulher a quem chamara de mãe a vida toda era, na verdade, sua tia. A mãe biológica abandonou Mahmoud aos 2 anos.

Eu fiquei triste e chorei muito. Mas depois fiquei agradecido por ela ter me criado. Não fosse ela, eu teria ficado jogado na rua. Ela ainda é minha mãe."
Mahmoud Abdul Rahman

Depois do ocorrido, bordou uma bata em sua homenagem. Nas costas, escreveu o nome da mãe de criação. “Para que eu me lembre que ela é minha mãe independentemente de tudo”. Mahmoud conta que ela está melhor, mas não sabe o que tem. Os irmãos não lhe contam porque está longe e eles têm medo de como Mahmoud vai reagir. Em julho do ano que vem, nas férias, quer fazer uma nova visita. “Duas semanas é muito pouco para matar a saudade”. Mais uma palavra do português cujo significado ele já conhece bem.

Hoje, o ganense mora com um primo, em Samambaia Norte. Sem as máquinas de costura e bordado que tinha em Gana, a “Mahmoud Designs” está parada. Mas, nas horas vagas, ainda costura uma ou outra peça com equipamentos emprestados — seus bordados são tão complexos que precisam de até três tipos diferentes de máquinas para ganharem vida.

Um primo tem uma máquina de costura e outro amigo, uma de bordado. Quando consegue, se divide entre os dois espaços para criar. Leva até quatro horas para costurar uma bata e mais quatro para bordar os detalhes. O trabalho compensa. Ele prefere o resultado colorido às camisas lisas sem vida que encontra nas lojas brasileiras. Ele enche a boca para falar que as pessoas o param na rua e perguntam onde ele comprou a camisa. “Eu digo que faço, mas como não tenho a máquina, não consigo vender para fora”.

A luta de Mahmoud agora é conseguir as máquinas semi-industriais para tentar fazer uma renda extra com suas criações. “Se eu não tenho máquina, não tenho cliente. Queria vender minha roupa, colocar em alguma loja, exposta. O bordado é a minha profissão, meu ofício”, repete. Ao todo, os equipamentos custariam cerca de R$ 7 mil. São máquinas de acabamento overloque, bordado e costura.

Quem tiver interesse em ajudá-lo pode entrar em contato com o Universal Diner, onde ele trabalha: (61) 3443-2089. 



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