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As redes sociais são responsáveis por disseminar um mix de frases de impacto anônimas decoradas com filtros e bordas de gosto duvidoso que costumam, na maioria das vezes, até condizer com a realidade. Uma delas é que “a renúncia é uma decisão sem arrependimento”.

Porém, se essa citação não faz sentido para a sua vida, pode acreditar que é a frase que define a trajetória da visagista Meire Reis, que comanda seu salão de beleza homônimo em uma das quadras mais badaladas do Lago Sul.

O que muitas mulheres da alta sociedade brasiliense que visitam o estabelecimento regularmente não sabem é que, além da renúncia, a história de vida de Meire Reis é cercada de sonhos que se materializaram depois de anos de muita dificuldade.

Giovanna Bembom/Metrópoles

Meire foi registrada como Roseneide Almeida dos Reis depois de um erro no cartório em sua cidade natal. Só descobriram o equívoco meses depois de ela ter nascido e mesmo tomando conhecimento, nem ela ou a família se preocuparam em mudar. “Todo mundo já sabe que é Meire. Era para ser Rosemeire, mas no interior não tinha cartório e na época ia ser uma confusão. Mas é só um detalhe que não tem motivo para mudar.”

Meire nasceu em Tabocas do Brejo Velho, um município pequeno do estado da Bahia onde na época, ela garante, não havia nenhuma perspectiva de crescimento. “Venho de uma família humilde e sem recursos financeiros. Meus pais viviam dos benefícios da roça e para criar os nove filhos era muito complicado.”

A infância, recheada com brinquedos inventados pelo pai, é algo que ela lembra com alegria sem se fazer refém das privações. “Eu só tenho saudade e admiração por eles. Eram pessoas simples, na realidade tudo era simples.”

Apesar de amar sua cidade natal, Meire queria crescer como profissional, mas não sabia por onde começar. Sentia que o interior da Bahia não era o lugar onde deveria estar e, ao terminar o segundo ano do ensino médio, decidiu se mudar para Brasília, chegando à capital em 1996.

Anunciei para o meu pai: ‘Painho, to indo embora para Brasília’. Ele, desesperado, me respondeu: ‘Você não conhece ninguém lá.’ Mas ele respeitou meu sonho. Depois de alguns meses conseguiu alugar, em Brasília, um lugar por dois meses para mim e para seis dos nove irmãos"
Giovanna Bembom/Metrópoles Giovanna Bembom/Metrópoles

A dificuldade de adaptação com a capital começou logo nos primeiros dias da mudança. Meire diz que naquela época não tinha dinheiro nem para comprar um jornal e olhar os classificados, porque todo o dinheiro era contado. “Meu irmão já estava trabalhando nas Lojas Americanas e ele conseguiu um jornal e me falou que lá tinha uma vaga para recepcionista. Não pensei duas vezes e aceitei o emprego.”

A vaga era em um salão de beleza. A visagista confessa que em seus primeiros dias ficou receosa porque não sabia passar um cartão de crédito. Aos poucos foi aprendendo e crescendo no local, indo de recepcionista a uma das funcionárias mais requisitadas pelas clientes.

O dinheiro que recebia ia para os cursos profissionalizantes e a outra parte ela economizava para realizar seu sonho: ser dona de seu próprio negócio. “Comecei aos poucos, guardando tudo que dava, depois fui aumentando, mas para isso tive que abdicar de muitas coisas.”

A renúncia, por mais redentora que possa parecer, é também o que leva Meire às lágrimas. “É um choro de alívio e gratidão. Vir de onde eu vim e estar onde estou é a prova de que tudo é possível.”

É muito difícil lembrar. Dediquei grande parte da minha vida para ser reconhecida como uma boa profissional. Fiquei sem visitar minha família na Bahia por muito tempo, mas hoje eu vejo que tudo precisou acontecer dessa forma. Foram 15 anos vivendo no limite, mas tudo valeu a pena graças a Deus."
Meire Reis

O salão Meire Reis funciona há quatro anos e atualmente recebe cerca de 60 pessoas por dia. Ao todo são mais 27 profissionais que fazem unha, cabelo, sobrancelha e outros tratamentos estéticos de segunda a sábado, sempre sob o comando de Meire, que acompanha o trabalho das funcionárias de perto.

“Não quero manter o funcionário como um empregado para a vida inteira, eu não gosto disso. Quero que elas aprendam comigo e mudem de vida para que no futuro tenham seu próprio negócio e possam ser felizes como eu fui”.

Giovanna Bembom/Metrópoles

 



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