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Durante 30 anos, a vida da cearense Cris E-Gen era muito parecida com a da maioria dos moradores de Brasília: acordava cedo, vestia uma roupa formal e passava o dia trabalhando dentro de uma repartição pública. Mas, quando o expediente acabava, a rotina dela transformava-se. Cris abdicava do happy hour com os amigos para viver dentro da religião budista.

A filosofia passou a dominar todas as esferas da vida da servidora. Ela lia, estudava e se dedicava às atividades da comunidade em Brasília durante todo o tempo livre. Além disso, apesar do bom salário do Senado, Cris não tem nenhum bem em seu nome. Todos os seus recursos vão para assuntos relacionados à religião. “Fui muito julgada quando escolhi meu caminho, mas para mim isso é felicidade plena”, explica Cris.

A vida dupla começou a ficar insustentável quando ela se mudou para dentro do Templo Shin Budista de Brasília. Por isso, em julho de 2016, a funcionária pública aposentou-se para se dedicar em tempo integral aos estudos.

Apesar de ser formada em sociologia pela Universidade de Brasília, ela sempre interessou-se por design e tecnologia. Por isso, quando passou na prova do Senado, entrou direto para a equipe de soluções de tecnologia da informação e de comunicações da instituição (Prodasen).

Lá, em um subsolo, conheceu pessoas com interesses semelhantes aos seus e teve o primeiro contato com a cultura japonesa, por meio dos colegas de profissão. A paz transmitida pelos colegas asiáticos chamava a sua atenção.

Discreta, ela conta que nunca foi muito de viajar para desbravar aventuras. “Não fico muito querendo me lançar no mundo, sabe?”, explica. A vida de Cris antes do budismo era como a de qualquer jovem de classe média alta: gostava de festas, de sair com amigos e até se apaixonou perdidamente por seu primeiro marido, com quem ficou casada por 14 anos. “Era uma vida muito boa, mas que não me fazia feliz”.

Não é preciso abdicar de nada, pois viver assim não é o suficiente. Coisas intangíveis são mais importantes que coisas superficiais."
Cris E-Gen
Giovanna Bembom/Metrópoles

Cris separou-se do marido, mas manteve uma relação de muito respeito com o ex. Tempos depois do divórcio, em 2004, ela conheceu o Tempo Budista de Brasília e o budismo. “Não existe um antes e depois. Na verdade, estamos mudando sempre. Isso se chama impermanência. Nada na sua vida é fixo, as coisas estão sempre mudando”, afirma.

Ela começou a estudar a história, as teorias e os comportamentos dessa fé. Quando percebeu, dedicava todo o seu tempo livre ao Templo Budista. O Monge Sato, fundador e cuidador do Templo brasiliense, encontrou na dedicação de Cris um afago e eles tornam-se amigos próximos. Foi quando o Monge sugeriu que Cris se dedicasse aos estudos de monja e ela topou imediatamente.

A relação entre Sato e Cris era de amizade. Depois que o monge ficou viúvo, eles descobriram um sentimento novo. Acabaram se casando. “Tínhamos uma relação de respeito muito grande e um nível de afinidade maior ainda”, explica.

Cris mudou-se de vez para a comunidade em que vive atualmente, no Templo Shin Budista de Brasília. Nessa época, ela percebeu a dificuldade de se dedicar sete horas por dia ao Senado Federal e à vida em comunidade.

“Viver dentro do Templo não é simples. Fazemos tudo uns pelos outros, então estamos sempre ocupados”, relata. É preciso conquistar o respeito e o espaço de seus vizinhos, que levam esse estilo de vida ao pé da letra. Os convidados são recebidos com chá, enquanto um incenso aromatiza o ambiente e a paz toma conta de quem faz a visita.

Cris toca o sino todos os dias às 7h, pontualmente, de domingo a domingo. Às 18h, as badaladas soam novamente. “Sabe o que acontece? A impermanência. Já parou para pensar que das 7h às 18h sua vida muda completamente todos os dias?”, questionou.

O maior aprendizado é manter a calma em meio ao caos. “As coisas nunca vão estar calmas como queremos. Então, o correto é encontrarmos o nosso centro de paz. Você é plena?”, questiona. “Porque eu vivo assim e sou plena.”

Giovanna Bembom/Metrópoles

A aceitação dentro da comunidade é algo que você precisa fazer por merecer. Somente após cinco anos vivendo no templo ela  recebeu o primeiro “bom dia” de um dos moradores. “Não é tão simples. Você precisa mostrar que está comprometida, não só com a vida comunitária, mas também com a vida intelectual.”

Foram vários abonos, férias não remuneradas e licenças de seu emprego oficial no Senado Federal. Todo o seu tempo livre era dedicado ao estudo do comportamento budista e ao aprendizado de japonês. Cris esteve no Japão quatro vezes a fim de explorar o processo cultural e, claro, estudar esse estilo de vida.

É um processo perceber a impermanência. Demorei a me adaptar à vida no templo. Não foi fácil, sabe? Mas é assim que me sinto completa, confortável. Eu me sinto em paz, plena."

Em 2015, a monja aposentou-se do Senado. Sem filhos e sem bens materiais, seu objetivo é dedicar cada um de seus reais vindos da aposentadoria ao crescimento do templo. “É a minha casa, sabe? Então, eu agora vou poder investir mais ainda na melhoria da minha casa”, comenta.

Giovanna Bembom/MetrópolesCris E-Gen ainda não concluiu totalmente o processo que a tornará Monja oficialmente. O primeiro passo foram 40 dias no Japão, 30 deles para treinamento e 10 dentro de um mosteiro.

Aprendeu a dobrar suas roupas corretamente, a cantar em japonês, decorou os nomes dos objetos utilizados pela religião e soube como se faz o oferecimento de incenso. Essa foi a primeira formação, que agora garante que ela está no caminho e não há como voltar atrás.

Em seu tempo livre, a moja prepara-se para a segunda etapa desse processo: tornar-se professora. “É muito difícil, exige muito estudo”, diz. É preciso falar japonês fluentemente e sua formação só será concluída quando ela for capaz de ministrar uma palestra na língua, sem hesitar e sem sentir dificuldades. Seu último desafio será viver em algum templo ou mosteiro como missionária. Depois das três etapas, Cris E-Gen Sato será, oficialmente, monja. Será uma das únicas do Brasil.



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