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O assunto da medicina no momento é o câncer. E o dos especialistas em tratá-lo, a imunoterapia. Com não mais que uma década de vida nos centros pioneiros — no Brasil, bem menos do que isso — ela aparece como a nova “porta da esperança” no tratamento da doença, especialmente de casos raros e complicados, contra os quais a medicina não tinha muitas armas até então, como o metastático de pulmão e o melanoma, um tipo agressivo de câncer de pele.

Ao contrário da rádio e da quimioterapia, que atacam as células doentes, o alvo da imunoterapia são justamente as saudáveis. De maneira bem resumida, ela fortalece o sistema imunológico do paciente para que ele próprio reconheça e combata o tumor. O desenvolvimento da terapia passou — e ainda passa — por uma série de estudos e descobertas, como a de um mecanismo pelo qual o câncer “desligaria” receptores dos linfócitos para que eles não o reconhecessem e ele pudesse crescer sem ser combatido.

A coisa é tão nova que, no Brasil, com exceção de algumas clínicas especializadas – e particulares -, só agora os oncologistas têm se inteirado sobre essa terapia: para que e para quem serve, e como prescrever o tratamento. Tanto que, na última semana, Brasília recebeu o II Simpósio Brasileiro de Imuno-Oncologia, organizado pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, reunindo alguns dos maiores “bam bam bam” do mundo em imunoterapia para que eles passassem aos especialistas brasileiros um pouco do seu conhecimento.

Entre eles, o médico oncologista Neil Segal, do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York (EUA), referência mundial em tratamento de câncer e um dos primeiros adeptos da imunoterapia. Antes da participação no evento, o médico conversou com o Metrópoles sobre o que representa essa nova arma na vida dos pacientes de câncer e que rumos o futuro aponta para o tratamento da doença.

Wilson da Costa

 

Como esse tipo de tratamento beneficia os pacientes de câncer?
Nós pensávamos o tratamento de câncer como sendo cirurgia ou radiação ou quimioterapia e agora aprendemos que há uma nova ferramenta que podemos oferecer aos nossos pacientes e que é um ótimo tratamento para alguns deles. E esse tratamento é a imunoterapia. A imunoterapia usa o sistema imune do próprio paciente para atacar seu câncer. Ele não atua no câncer, mas sim no sistema imunológico.

Nos últimos 15 anos, assistimos e esperamos as pesquisas, testes de laboratório e alguns testes em pacientes e pudemos medir o quanto isso foi efetivo para os o melanoma. E de uns anos para cá, aumentamos o número de tratamentos que investigamos. Um deles é chamado anti-PD1. O negócio é que o sistema imunológico é treinado para procurar o que é diferente e combater. Esse é um sistema cheio de processos minuciosos, e o câncer usa esses processos para manter-se longe do sistema imunológico. Essencialmente, essas drogas impedem que isso aconteça.

Há quanto tempo tem sido usada?
Não mais do que sete anos, depois que tivemos muitos pacientes testados. Hoje em dia, são aprovadas seis indicações para o uso da imunoterapia nos Estados Unidos, entre eles melanoma, câncer de pulmão de células não pequenas, câncer nos rins, linfoma de Hodgkin, e câncer no cérebro.

E pelos resultados observados, você acredita que essa lista aumente em breve?
Sem dúvida. Existem muitos e muitos testes clínicos acontecendo no mundo inteiro hoje, novas drogas sendo testadas e novas combinações para tornar os resultados ainda melhores. Assim, a imunoterapia não apenas deve tratar outros tipos de câncer, mas ser ainda mais efetiva contra os que ela já tem indicação aprovada.

Você acha que ela deve substituir terapias tradicionais, como quimioterapia, ou é uma coadjuvante no tratamento?
Eu acho que a imunoterapia é um tratamento adicional que temos a oferecer aos nossos pacientes, mas ela não substitui a quimioterapia ou outros tipos de terapia, como cirurgia. No futuro, conforme aprendermos mais sobre o nosso sistema imunológico, poderemos combinar a imunoterapia com a quimio ou a radioterapia. Em vez de substituir a quimioterapia, conseguiremos resultados melhores para os nossos pacientes.

É uma alternativa para tipos de câncer raros ou com tratamentos difíceis?
Sim. Para o melanoma, por exemplo, a imunoterapia se provou melhor do que outras alternativas. Por isso, hoje ela é a linha de frente de tratamento desse tipo. Para outros, ela pode ser usada, por exemplo, quando a quimioterapia já não é mais efetiva. Existem muitos estudos em andamento ainda. Mas teoricamente, a imunoterapia pode funcionar em qualquer tipo de câncer. Só precisamos descobrir qual a droga necessária e como administrá-la.

A imunoterapia ainda é um tratamento de custo muito alto. Chega a US$ 30 mil (cerca de R$ 97 mil) por aplicação. Como você acredita que o sistema de saúde, público e particular, vá incorporar essas drogas? Como isso acontece hoje nos Estados Unidos?
O custo da imunoterapia é um dos pontos mais importantes a serem abordados hoje. Precisamos torná-la acessível aos pacientes, e para isso precisamos baixar os custos. Isso será possível se laboratórios, farmacêuticos e governo trabalharem juntos. Nos Estados Unidos hoje as seguradoras de saúde pagam por ela. Eu não sei quando, mas espero que o custo diminua consideravelmente.

Quais são os efeitos colaterais para o pacientes? Mais brandos que o da quimioterapia?
A imunoterapia tem efeitos bem específicos que são muito diferentes dos da quimioterapia. Eles ocorrem porque o sistema imunológico ataca o próprio organismo, o que leva à inflamação. A maioria dos pacientes tolera bem o tratamento. Pode ocorrer inflamação do pulmão, que é rara, da pele, em qualquer parte do corpo. Os pacientes precisam estar cientes dos efeitos colaterais.

 



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