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Às 6h, ele toma o café da manhã. Abre um aplicativo no telefone celular e coloca tudo o que vê no prato, especificando as porções. O programa calcula a quantidade de calorias, carboidratos e gordura da refeição. Ufa, ainda restam 1.700 calorias para o restante do dia. Depois, é hora do treino.

Na academia, ignorando a presença dos instrutores, ele abre outro aplicativo, que lhe diz tudo o que fazer: uma sequência de agachamentos com peso, flexões e abdominais. À noite, quando chega em casa, confere no Apple Watch quantos passos deu ao longo do dia e a quantidade total de calorias gastas. Especialistas sugerem pelo menos 10 mil passadas num dia para ficar fora da zona do sedentarismo. 

A geração que experimenta a vida através de uma tela de seis polegadas não dorme no ponto quando o assunto é saúde. Uma série de estudos, de diversos países, já mostraram que os millennials – pessoas nascidas entre 1980 e 2000 – são muito mais conscientes com relação à saúde que a geração de seus pais e avós.

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Tanto que até as marcas de bebida têm investido em rótulos orgânicos e mais naturebas para atender essa galera que está mais interessada em cuidar da saúde do que sair para uma noitada com os amigos. No mercado, os produtos se dividem em “orgânicos” e “não orgânicos”, “com gordura trans” e “sem gordura trans”. Preste atenção. Eles estão revolucionando a forma como o mundo vê e consome produtos de bem-estar.

Uma dessas pesquisas, por exemplo, da Goldman Sachs, concluiu que, enquanto as gerações anteriores consideram saúde o fato de não adoecerem ou de terem o peso certo para sua altura, os millennials associam a comer bem e se exercitar. Além disso, outro relatório, dessa vez da Nilsen Global Health and Wellness Survey, descobriu que 41% deles estão dispostos a pagar mais caro por produtos mais saudáveis, contra 26% da geração X e 16% da chamada geração silenciosa, nascida entre 1925 e 1945 – seus avós.

Comida em pó
“A grande diferença é que eles tratam o corpo como máquina”, analisa Michel Alcoforado, sócio-fundador da Consumoteca, empresa especializada em destrinchar o comportamento do consumidor brasileiro. “Os yuppies, por exemplo, pensavam o corpo como experiência. Essa geração, não. Eles colocam óleo na máquina, abastecem o corpo”, continua. É a era da dieta funcional: a comida não é feita para dar prazer. Mas para fazer o corpo funcionar “a toda”.

O que muda é que cada coisa que você bota na boca você pensa na funcionalidade desse alimento. O prejuízo e o retorno que aquilo traz para o meu corpo. Troca-se comida por proteína em pó."
Michel Alcoforado, sócio fundador da Consumoteca


A mudança passa, em parte, segundo Alcoforado, pelo fato de que essa geração usa o corpo para ostentar. Saúde, beleza, status. O corpo da Gabriela Pugliesi é tão importante quanto o cabelo da Lala Rudge – e vale tudo para chegar lá. “E ainda tem outra lógica nessa história, Você não pode beber demais porque não é saudável. Mas também não pode dizer que não bebe nada. Não pode ser gordo, mas também não pode ser raquítico. Há uma busca incessante pelo ‘meio’, como se ele fosse régua de equilíbrio”, diz o especialista.

Tudo isso vende. Vende rótulos cheios de “sem”: açúcar, glúten, lactose, gordura. Mobiliza o mercado de nutrição, de saúde e de fitness. E tudo desemboca na tal da tela de seis polegadas – a máquina “corpo” é monitorada por aplicativos que dão conta de tudo, da consulta médica ao treino na academia. Ao revolucionar o cuidado com a saúde, essa geração tem ainda revolucionado a economia: até médico dá para chamar pelo celular, no maior estilo “Uber”.

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O Docway, um app que se autointitula “o Uber da medicina”, completa um ano agora em setembro com serviço em 120 cidades do país e planos para expandir os negócios além-mar já em 2017. Fábio Tiepolo, 34 anos, fundador da startup, deixou uma carreira como executivo em uma multinacional de saúde para lançar a própria empresa – ele mesmo um expoente dos millennials. A ideia é que, onde quer que você esteja, um médico chegue até você, sem passar por nenhuma secretária ou agenda lotada antes.

“O tempo de espera hoje (para uma consulta) é muito grande. Essa geração não está acostumada a esperar. E passar quatro, cinco horas no pronto-atendimento ou seis meses para uma consulta é tempo demais. Eles querem tudo na mão”, comenta Tiepolo.

O serviço tem hoje 1,8 mil médicos cadastrados, para cerca de 25 mil pacientes. É possível fazer agendamentos para a próxima hora, com valor médio de R$ 200 por visita. O valor depende do médico e do procedimento. A maior parte dos usuários tem entre 25 e 30 anos – justamente quem não quer mais saber de telefone e agenda de papel. Este ano, parte da empresa foi comprada pelo Grupo Garantia, que tem sob suas asas, por exemplo, a Centauro, de artigos esportivos.

A Docway de Tiepolo faz parte de um grupo de aplicativos chamado de “on demand” (por demanda), como o Uber. De acordo com um relatório da Accenture de julho passado, os investimentos em aplicativos de saúde por demanda devem bater US$ 1 bilhão em 2017. Em 2014, foram apenas US$ 200 milhões. Hoje, dois aplicativos de saúde já figuram na lista dos dez maiores investimentos em aplicativos “on demand”: o TelaDoc e o American Well, ambos com serviços de “telemedicina”, em que paciente e médico se veem por vídeo. Esse tipo de consulta não é regulamentado no Brasil.  

Quem consome também empreende
A revolução geracional rebate tanto no mercado que já existem aceleradoras – empresas dedicadas a “tirar do papel” empreendimentos – voltadas apenas a startups digitais de saúde. É o caso da Berrini Venture, em São Paulo, que já recebeu aplicação de mais de 200 empresas e hoje acompanha oito, a maioria de aplicativos, feitos e direcionados a pessoas jovens.

“Tem médico que eu vou que ainda faz minha ficha médica em papel. Não que seja ruim, mas foi o jeito que ele aprendeu a fazer. Então quanto podemos evoluir ainda? O tamanho da oportunidade é enorme”, comenta. “E quem vai acelerar essa revolução são justamente médicos jovens que vão incorporar esses avanços e pacientes jovens”, continua.

 



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