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Rafael Parente

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Uso desenfreado das tecnologias é um desserviço ao futuro das crianças

Da Redação
 

De acordo com o último TIC Kids On-line, levantamento realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), 85% dos usuários de internet entre 9 e 17 anos acessam a rede via celular.

A pesquisa revela que, em 2015, duas a cada três crianças e adolescentes brasileiros com acesso à internet se conectavam mais de uma vez ao dia, número triplicado em relação à pesquisa de 2014 (21%). E estamos falando de dois anos atrás. Esses números devem ser bem maiores agora.

Em uma era em que os pais têm cada vez menos tempo para os filhos e as novas tecnologias invadem casas e escolas, essas ferramentas têm sido usadas para entreter, ensinar e acalmar. Não é um exagero se dizer preocupado com o uso irresponsável ou sem planejamento delas.

Se, de um lado, algumas empresas vendem suas soluções como milagres da ciência, que podem alfabetizar, ensinar matemática ou línguas estrangeiras a partir dos 4 anos, 2 anos ou até dentro do útero; de outro lado, há pais e educadores que defendem a proibição total das telas até o começo da puberdade. Quem está correto?

De fato, o uso desenfreado das novas tecnologias pelas crianças é um desserviço à construção do seu futuro. As mídias interativas devem ser utilizadas de forma intencional e apropriada, como apoio à aprendizagem e ao desenvolvimento de uma criança, reconhecendo que cada uma é única, e esse uso deve ser apropriado à idade, ao nível de desenvolvimento e aos contextos sociais e culturais.

Jogos digitais e plataformas adaptativas precisam auxiliar as crianças e os jovens na construção de novas competências e habilidades dentro do seu próprio ritmo, sendo uma opção em um leque de estratégias de ensino. O foco principal deve ser na qualidade da prática e na didática, em vez de na
tecnologia.

No entanto, a proibição total é perigosa e desnecessária. Essas ferramentas têm potencial para melhorar o ensino, quebrar barreiras de tempo e espaço, estimular a criação e a comunicação das crianças e dos jovens. Essa utilização intencional e planejada requer que educadores, gestores e famílias tenham informações suficientes sobre a natureza das soluções tecnológicas e suas consequências.

Outra recomendação importante é agir com bom senso em relação ao tempo de uso. Um estudo da Universidade da Califórnia concluiu que as crianças americanas estão passando cada vez mais tempo em frente às telas e isso está diminuindo a sua capacidade de reconhecer as emoções das outras pessoas, algo essencial para o desenvolvimento de empatia, por exemplo.

Além de problemas em reconhecer emoções, pesquisas sérias já demonstraram que passar desses limites pode causar outros problemas graves para as crianças, como obesidade infantil, noites irregulares de sono e dificuldades em se comportar socialmente. Durante o uso das novas ferramentas tecnológicas, os adultos devem dar todo o apoio necessário para que crianças e jovens possam refletir, fazer perguntas apropriadas e pensar criticamente sobre a experiência.

É necessário, também, se preocupar com a equidade no acesso a boas experiências interativas. Pesquisas demonstram que é menos frequente o acesso de crianças de famílias com menor poder aquisitivo e de crianças com algum tipo de deficiência a soluções tecnológicas, o que significa que  podem estar contribuindo para o aumento do déficit de aprendizagem nesses grupos.

É impossível imaginar como as tecnologias evoluirão em alguns anos ou quais serão utilizadas (e de que forma) quando as crianças de hoje se tornarem adultas. No entanto, já sabemos que governos, empresas e organizações do terceiro setor precisam investir constantemente em novas pesquisas que contribuam para um conhecimento mais aprofundado dessas questões e para a compreensão dos efeitos a longo prazo.

(*) Rafael Parente é PhD em educação (NYU), CEO da Aondê/Conecturma (empresa de educação e tecnologia), cofundador do Movimento Agora!, criador e apresentador do Canal Educação na Veia, membro do conselho do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (FGV/EBAPE Rio) e sócio efetivo do Movimento Todos pela Educação.

 
 


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