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A cidade de Madaya se tornou um símbolo do sofrimento da população civil na Síria: ela está cercada há mais de um ano pelas forças do regime do presidente Bashar al-Assad, e seus 40 mil habitantes lutam pela sobrevivência e contra a falta de alimentos.

Em janeiro, as Nações Unidas alertaram para o drama na cidade, onde havia relatos de crianças desnutridas e pessoas morrendo de fome. O sírio Rajaii Bourhan, de 26 anos, vive em Madaya. Em entrevistas à DW, ele contou como é sobreviver com 200 gramas de arroz por dia e sem eletricidade e gás.

DW: Madaya está sitiada há mais de um ano. Pela primeira vez em seis meses, a ajuda humanitária chegou à cidade, no fim de semana. Como foi a reação dos moradores e qual era o item mais necessitado?

Rajaii Bourhan: Há uma palavra em árabe para isso: eid, dia de celebração. A ONU nos trouxe açúcar e farinha de trigo, esses eram os itens mais importantes. Agora podemos fazer pão novamente. Esperávamos há muito tempo por isso. Não tínhamos mais nada além de arroz e triguilho.

Os ingredientes trazidos no fim de semana devem durar um mês ou um mês e meio. Racionamos nossos estoques para termos comida pelo maior tempo possível. Além disso, recebemos grão de bico, remédios e carregadores de bateria solares para nossos celulares.

DW/Divulgação

No início do ano, a imprensa noticiou bastante sobre a crise de fome e relatos de pessoas morrendo por falta de comida. Como está a situação agora que chegou a ajuda?

A vida em Madaya é parecida com a da antiga União Soviética: comemos sempre as mesmas coisas. Cada pessoa recebe entre 200 e 300 gramas de arroz ou triguilho por dia, cozinhados sem sal ou azeite. Às vezes, não quero comer nada e vou para a cama com fome, porque não aguento mais arroz. Eu costumava malhar, era até encorpado, pesava 93 quilos. Agora, estou bem magro, emagreci muito.

Há médicos ou um hospital na cidade?

Não há hospital, há apenas uma clínica de saúde. Temos um dentista que ainda não é formado e um veterinário, mas não há médicos. Os dois fazem o melhor que podem e cuidam das pessoas.

Como você descreveria o cotidiano numa cidade sitiada? As pessoas trabalham? O que os moradores fazem durante o dia?

Não temos eletricidade e também não há trabalho, mas todos têm hobbies. Eu adoro história, por isso, leio muitos livros. Isso é tudo o que posso fazer. Meus amigos deixaram Madaya há tempos, assim, fico sozinho na maior parte do tempo.

Do que você sente mais falta da sua vida antiga?

Da universidade, adoraria voltar a estudar. Estudava economia em Damasco, mas tive que abandonar os estudos em 2011, porque participei dos protestos contra o regime e fui preso. Depois de dois meses, fui solto, no entanto, não tive coragem para voltar e viver na minha cidade, Al-Zabadani. Então, fugimos. Estou morando em Madaya, com parte da minha família, há dois anos.

Qual é sua maior preocupação no momento?

Precisamos urgentemente de combustível, o inverno está chegando e não temos como cozinhar ou nos aquecer. Queimamos plástico para cozinhar. Aqui é muito frio no inverno. Temos cobertores, mas precisamos de eletricidade e diesel. A ONU prometeu voltar em breve e trazer um pouco de combustível, esperamos que eles venham antes do inverno.

Há alguma maneira de sair da cidade?

Estamos cercados pelo Exército e pelo Hisbolá. Da minha casa, vejo muitos postos de controle. Muitas pessoas tentaram sair de Madaya e foram mortas ou perderam uma perna por causa das muitas minas terrestres. Talvez sejamos evacuados em algum momento, como as pessoas em Daraya, e levados para o norte.

Embora eu não estude mais, viva em uma casa que não me pertence, coma as mesmas coisas o tempo todo e não faça progresso na vida, continuo querendo permanecer no meu país. Sair seria como se eles tivessem triunfado sobre nós.

 

 

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