E quando chegar a sua vez?
Quem viu o fim da vida de perto conta
o que aprendeu
Leilane Menezes
"Crianças não têm medo da morte. São os adultos que transformam o morrer em uma questão obscura. Com isso, criamos pessoas ansiosas, que não sabem perder"Explica a psicóloga Sílvia Coutinho, especialista em cuidados paliativos pediátricos e adultos.
Psicóloga Silvia Coutinho diz: não sabemos lidar com a
morte
Érika Oliveira Coordena uma unidade de cuidados
paliativos
"Sempre disse que poderia acontecer de tudo comigo, menos perder um filho. E aí aconteceu. Perguntam: ‘De onde você tira força?’. Do amor"Elisa Walleska KrügerTúlasi ficou “estupefata” com a notícia, mas manteve-se racional. “Nunca a vi se vitimizar, em momento algum”, conta Elisa, ao lembrar da reação da filha diante do anúncio de que a vida lhe seria breve. “Somos todos pacientes terminais. Qualquer um pode morrer de repente”, dizia para consolar a mãe. Um dia, no supermercado, ela se animou no corredor de pratos instantâneos. O tratamento havia lhe imposto uma dieta severa, com quase nenhuma reserva aos prazeres gastronômicos. “Mãe! Miojo! Eu sou paciente terminal! Posso comer miojo!”, gritava no supermercado, numa cadeira de rodas. Elisa lembra da cena e solta uma gargalhada. Já bastante debilitada, quando nem a morfina sossegava suas dores, Túlasi descobriu um jeito de vencer o câncer. “Ela me disse que queria dar a última palavra”, diz a mãe. Informou-se sobre um protocolo de sedação paliativa para pacientes terminais, disponível no Inca.
"Túlasi conseguiu transformar em vida um corpo doente"Elisa Walleska KrügerNo luto, a mãe que temia jamais ter forças para enfrentar a perda de um filho, se fez mais forte. Descobriu que, ainda que Túlasi tenha partido, jamais deixará de ser sua filha. A resposta veio simples, numa conversa informal com um motorista de táxi que lhe perguntou quantos filhos ela tinha. “Quatro”, respondeu. “Você não vê mais a pessoa, mas o amor continua. O corpo morre, mas ela continua viva para a gente”, tenta explicar. Mais difícil que aceitar a partida de um filho, ela acredita, é lidar com a cobrança da sociedade. “As pessoas esperam que você mate o seu filho dentro de você. É uma coisa adoecedora. Se você se joga em uma cama, cobram que você volte a viver. Se reage de outra forma, então é porque está em negação ou então não amava o filho o suficiente.” Hoje, quase dois anos depois da morte da filha, Elisa está em paz. Com o livro que escreveu, espera espalhar um pouco da serenidade de Túlasi e falar sobre o HPV - vírus causador do câncer de colo de útero. Também discute a eutanásia, assunto caro a ela e à filha. “Ter encarado a morte fez a vida melhor. A gente deixa tudo para depois e não desfruta a vida. Uma parte dessa dor toda é porque ninguém está acostumado a falar da morte, e olha que ironia, ela é a única certeza que nós temos”, conta.
A morte, no fim, é aquela sombra feia num quarto escuro que, quando a gente acende a luz, vê que é só a cortina"Elisa Walleska KrügerO livro “Eterna Túlasi” foi lançado no Rio, em uma casa de rock tradicional da cidade, como a filha gostaria. O texto de apresentação fala de amor incondicional. “Bem aqui está: eu tive uma filha, devolvi-a para a luz, plantei uma árvore com as suas cinzas e escrevi seu livro”, dizem as palavras de Elisa. O ciclo está completo.
Isabel disse que ela mesma compraria as flores. Se pudesse, teria
feito tal qual Mrs Dalloway, personagem de
Virginia Wolf
que preparava detalhadamente uma grande festa. Para Isabel,
tratava-se do último capítulo de uma história real que vale a pena
contar. A pedagoga Isabel de São José, 70 anos, preparou o próprio
funeral. Acamada com câncer, entregou a uma grande amiga, Iris, um
manuscrito com quase 60 páginas. Em cada linha, expressou seus
desejos finais. A eles misturou memórias preciosas. “Ela era uma
pessoa verbal. Falava o que sentia, o que queria”, lembra a
sobrinha, Alexandra Oliveira, médica do HUB. Carioca radicada em
Brasília, Isabel amava festas, samba e MPB. Cantava Alcione, Gal
Costa e pagodes das antigas. Demandou que houvesse canto e dança no
cemitério. Também queria comida. Era cozinheira oficial dos almoços
de família, fã do gosto da feijoada, da rabada com agrião. Sem
filhos, criou com amor as sobrinhas, que perderam a mãe logo cedo.
Era porto seguro de amigos também, que a visitavam em busca de
conselhos racionais. Adepta do sincretismo religioso, Isabel fazia
parte do Coral Messiânico, frequentava a Igreja Dom Bosco, na Asa
Sul, e centros espíritas. Fez com que tudo coubesse em sua cerimônia
de despedida. Também pediu para ser enterrada bonita: de batom,
brinco (tinha uma coleção com mais de 200 itens) e perfumada.
"Vinham pessoas de outras capelas espiar o que estava acontecendo. Todos se emocionaram. As pessoas iam chegando tristes, mas entendiam que ela havia pedido alegria e entravam no clima"Lembra AlexandraEm seguida, o coral Vozes de Prata, do qual Isabel era destaque, estava a postos. As vozes entoaram várias canções, entre elas “What a Wonderful World”, como havia sido pedido. Por fim, Isabel deixou também poesias e outros textos sobre questões que considerava essenciais para que soubessem quem ela era. “Tenho orgulho de ser negra. É a minha raiz e minha força vem disso”, escreveu. Filha de merendeira, Isabel cursou ensino superior, fez pós-graduação e chegou a cargos de chefia nas escolas públicas onde trabalhou -- foi diretora e coordenadora. Enfrentou o racismo de cabeça erguida e ensinou as sobrinhas a fazerem o mesmo. O funeral encerrou-se com “Eu Sou o Samba”, cantada pelo coral. Já era à tardinha quando os últimos versos soaram no Campo da Esperança. Isabel morreu como gostava de viver. Misturou-se ao som e foi embora com o sol.
"A morte nos revela quais são as nossas verdadeiras prioridades. A gente se sensibiliza com a delicadeza e afetividade dos desejos dos nossos pacientes"Diz a médica chefe dos cuidados paliativos no Hospital de Apoio, Érika Oliveira.Tanto no Hospital de Apoio quanto no HUB as equipes se esforçam para realizar sonhos de quem passa por ali. Lucas Rodrigues foi um dos pacientes que estiveram nas duas unidades de saúde. Ele completou 15 anos com uma pequena comemoração num quarto do HUB, com bolo e parabéns. Seus dois últimos desejos: ganhar um sofisticado carrinho de controle remoto e comer no McDonald´s.
"Deus me emprestou o Lucas para eu cuidar. Chegou a hora de devolvê-lo"Claudinete Rodrigues
“A gente nunca sabe se vai acordar. A morte não dá colher de chá”Moisés André da Silva FilhoAs experiências vividas nessas décadas viraram o livro “Lições de viver e de morrer”, escrito por Moisés. “A primeira lição de viver é agradecer por cada minuto que passa, um milagre que não se repete”, reflete.
"Quem de novo não morre, de velho não escapa"AntônioA família encara o fim da vida com naturalidade graças ao histórico de partidas súbitas dos Souzas. É comum entre eles morrer jovem e repentinamente. “Minha tia Lúcia, de 44 anos, estava varrendo o quintal e morreu com um suspiro. Minha avó ainda jovem caminhava na roça e caiu morta. Meu tio Antônio, de 52 anos, acordou, tomou um copo d´água e foi o último. É comum entre nós”, relata Ivonete.