Do aparentemente inofensivo ato de furar uma fila aos desvios bilionários de recursos públicos, a corrupção está arraigada no cotidiano do brasileiro. Hoje, o combate a essas práticas não se limita às ações policiais. Uma série de iniciativas tem usado a educação como ferramenta transformadora da consciência de crianças e adolescentes. O Metrópoles conta como essas experiências estão sendo aplicadas em escolas de todo o país

09/10 17:04

A corrupção está presente no nosso dia a dia, nas mais variadas formas. De pequenos atos, como a falsificação de atestados médicos para faltar ao trabalho, aos bilionários esquemas de desvio de recursos públicos, o crime afeta a todos. Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) calcula que até 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país são desviados anualmente. Cerca de R$ 200 bilhões desaparecem a cada ano, o equivalente a quase duas vezes o orçamento da saúde pública brasileira em 2016.

Os valores são tão altos que a corrupção é a principal preocupação de 65% dos brasileiros, segundo pesquisa Ibope de janeiro. E as duas principais áreas atingidas, segundo o Ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União (CGU), são a saúde e a educação. Uma parcela significativa do dinheiro que os contribuintes dão ao Estado na forma de impostos e tributos não é revertida na prestação de serviços, e acaba no bolso de servidores, empresários e políticos.

Para um grupo de especialistas, os problemas de hoje começaram no passado e envolvem uma questão mais complexa do que o simples início da prática dos atos ilícitos. Uma nova corrente de pensamento tem defendido que a origem da corrupção vem da infância. Cada vez mais estudiosos acreditam que pequenos desvios de comportamento na fase da vida na qual os valores estão sendo moldados terão reflexos profundos no futuro. As crianças tendem a repetir o exemplo que têm em casa e as referências mais próximas do convívio diário.

Com essa visão, entidades e organizações têm incorporado o tema às suas atividades e desenvolvem projetos de educação cidadã visando conscientizar crianças e adolescentes. Há grupos voluntários, como o Política de A-Z, do Distrito Federal; e parcerias entre entidades públicas e privadas, como no programa Um por todos e todos por um!, do Ministério da Transparência com o Instituto Maurício de Sousa. Todos compartilham uma visão: é preciso falar sobre a corrupção. E desde cedo.

Quando somos crianças, a empatia nos ajuda a entender os problemas. Algo como saber que puxar o cabelo do colega doerá tanto quanto se o meu fosse puxado. É a base da ética. Com essa noção, quando desenvolvem o raciocínio abstrato, as crianças fazem a correlação e vão saber que o mesmo vai ocorrer com a corrupçãoDenise Ramos,Professora de psicologia da PUC-SP e especialista em corrupção e patologia social

Nesta reportagem especial, o Metrópoles conheceu algumas dessas iniciativas que buscam levar a crianças e jovens noções de democracia, cidadania, ética e instrumentos de controle da gestão pública. A ideia é formar cidadãos capazes de lutar contra as raízes da corrupção desde cedo.

Rafaela Felicciano/MetrópolesEscola Classe 15, em Ceilândia

Um por todos…

Mônica e Cebolinha são os companheiros das crianças entre 8 e 11 anos que fazem parte do programa Um por todos e todos por um!. O Instituto Maurício de Sousa criou histórias em quadrinhos e elaborou material específico para estimular o debate do tema corrupção ainda em 2009. São apresentadas noções de ética, cidadania e diversidade para as crianças.
A iniciativa foi testada como programa-piloto em alguns colégios. A experiência deu bons resultados e, hoje, cerca de 1,8 mil escolas no país inteiro aplicam o modelo. Pode parecer pouco dentro do universo de 163.964 instituições de ensino fundamental e médio existentes no país, mas já é um começo.

O programa Um por todos e todos por um! criou quadrinhos da Turma da Mônica para falar sobre ética, cidadania e diversidade. Confira alguns exemplos

No Distrito Federal, o método é usado na Escola Classe 15, em Ceilândia. A vice-diretora, Mariângela Cambraia, explica que procurou o programa após uma reflexão sobre os problemas que o colégio enfrentava, como falsificação de assinaturas dos pais pelos alunos, brigas por causa de filas furadas e roubos de lanche entre os colegas.

Desde então, Mariângela adotou uma série de iniciativas para lidar com o que, no jargão dos educadores do ramo, é conhecido como “pequenas corrupções”. Além de debater questões cotidianas do universo escolar, os alunos conversam na sala sobre temas como pirataria, desvio de internet e eletricidade dos vizinhos, entre outros.

“Esses comportamentos que visam levar vantagem foram reduzidos na escola”, relatou Mariângela. “Os alunos também melhoraram a oralidade e o vocabulário. Começaram a pesquisar mais e a aplicar o conhecimento no dia a dia. Hoje, gostam mais da escola.” Chamou a atenção a influência do comportamento dos alunos nas atitudes dos pais. “Eles começaram a procurar a escola para entender por que os filhos diziam que roubar a internet do vizinho e comprar DVDs falsificados eram práticas erradas”, disse.

Em visita ao colégio, a reportagem conversou com as crianças (veja vídeos), que já têm boas noções sobre o que são comportamentos corruptos. Questionadas se aceitariam fazer algum ato considerado ilícito, retrucaram: “Claro que não, tio”.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Isadora Sousa Tavares
Adrian Araujo Nogueira
Milena Geovana dos Santos Rodrigues

Um dos propósitos do programa, segundo o chefe de Gabinete da Secretaria de Transparência e Prevenção da Corrupção do Ministério de Transparência, Sérgio Akutagawa, é melhorar a autoestima das crianças. Para isso, o tema da diversidade serve para que elas se olhem e se aceitem, além de compreender as diferenças dos outros.

Para a psicóloga Denise Ramos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a autoestima bem trabalhada é uma das chaves no processo de combate à corrupção. “Muitas das atitudes se baseiam em um certo complexo de vira-latas, de uma relação histórica de que quem manda no país é um mestre que vem de fora e logo vai embora. Dessa forma, fica a impressão de que é preciso lucrar rapidamente a todo custo. Não há um sentimento de identidade”, explicou, recorrendo à história do Brasil Colônia. “Agora, se eu mesmo determino o meu destino e sou feliz com o que sou, não colocarei parte do meu caminho à venda por uma vantagem rápida.”

Fundação Mário Covas/Divulgação

Ativismo na periferia de São Paulo

Em São Paulo, um grupo de ativistas e intelectuais frequenta a periferia da cidade com um objetivo: conversar sobre política. Não a política abstrata ou partidária, mas aquela que está ao seu lado quando você paga impostos, escolhe um representante e usufrui — ou deixa de usufruir — de um serviço público.

À frente do Curso de Iniciação Política, como é batizado o programa, está Humberto Dantas, cientista político e professor de pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP). Ele explica que a ideia é fazer três encontros com alunos do 3º ano do ensino médio para falar sobre três temas: cidadania, democracia e estrutura do Estado. E ouvir o que eles têm para dizer.

“No ano passado, conversamos com cerca de 1,1 mil jovens. Em uma realidade paulistana, é pouco, mas é interessante e surpreendente. Eles têm mais interesse e senso crítico do que imaginamos. Fica claro o que pensam e as esperanças deles como parte da sociedade”, destacou.

Os jovens ainda aprendem conceitos sobre o funcionamento do Estado, seus serviços e instrumentos de fiscalização. A proposta é que eles sintam-se capazes de fazer as próprias escolhas e responsáveis pelo ambiente em que vivem.

Como referência, Dantas relata a experiência que teve na Alemanha, onde acompanhou a evolução da educação cidadã das crianças ao longo dos anos. “Desde cedo, elas discutem o que querem como sociedade. À medida em que avançam o assunto, desenvolvem um olhar mais integrado sobre a cidade”, comentou. Essa relação, defende o especialista, ajuda a moldar os valores sociais dos jovens.

Não acredito em uma pauta somente negativa. É preciso haver uma positiva, falando sobre o que é importante para a sociedadeHumberto Dantas,Cientista político e professor de pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP)

Crianças do país inteiro participaram, em 2015, de um concurso de desenho com o tema “pequenas corrupções”. Confira como elas retrataram esse problema nos desenhos premiados

Política de A a Z

Em uma conversa informal, uma amiga arquiteta perguntou ao sociólogo Leandro Grass como funcionava o Congresso. Da pergunta nasceu a ideia de criar um portal que explicasse como funciona a política.

A primeira fase do site Política de A a Z apresentava conceitos básicos e complexos de maneira didática. Os acessos cresceram e surgiram convites para palestras em escolas. Assim, o público principal foi definido: crianças e adolescentes.

Felipe Menezes/Metrópoles

Desde então, ao lado de parceiros — os historiadores Leonardo Soares e Reinaldo Cordova, além do pedagogo Ricardo Spindola Mariz, todos com extensa formação acadêmica —, o projeto é levado às escolas.

“Explicamos quais são as funções de deputados, senadores e do presidente da República”, disse Grass. “Falamos sobre eleições, de onde vem o dinheiro das campanhas e por que as empresas se interessam em financiar um candidato, entre outros temas”, disse Grass.

Com isso, as crianças aprendem como a política funciona e quais os caminhos mais comuns da corrupção. Os quatro parceiros do projeto são voluntários e assim pretendem ficar. Para eles, o lucro tem valor intangível: atacar a corrupção na juventude e usar o conhecimento como ferramenta de transformação social.

Valter Campanato/Agência Brasil

O que você tem a ver com a corrupção?

Além do fato de ser afetado diretamente, você tem o dever de ajudar a combater a corrupção. E pequenas atitudes podem resultar em grandes mudanças.

“Não adianta combatermos a corrupção apenas pelos frutos podres da árvore social que ela representa. Temos que ir na raiz e na estrutura. Por isso, ao falar com crianças e adolescentes, buscamos mostrar que, ao evitar corrupções diárias no nosso dia, estamos fortalecendo a base da árvore que vai frutificar ali na frente”, explicou a promotora Luciana Asper, uma das responsáveis pelo programa O que você tem a ver com a corrupção?, do Ministério Público.

A iniciativa faz parcerias com outras entidades que têm como objetivo fiscalizar o uso do dinheiro público, como a Controladoria-Geral do Distrito Federal (CGDF). Dessa forma, são promovidas palestras e audiências nas escolas para alertar sobre a importância do tema e como cada pessoa pode melhorar a situação.

A ideia é que os educadores se empoderem e estimulem o debate sobre o combate à corrupção de maneira institucional nas escolas. É preciso que seja uma questão cultural, arraigada na educação brasileiraPaulo Quintela de Almeida,Promotor

Uma das iniciativas nessa esfera foi coordenada pela CGDF. A controladoria levou à escola CEF 404 de Samambaia a proposta de fazer uma audiência cívica na escola. O procurador-geral do DF, Henrique Ziller, contou que a ideia era elencar os problemas locais e buscar soluções. “Os adolescentes também têm o poder de melhorar o seu mundo escolar”, disse.

As discussões também se traduziram em ações. Um exemplo foi a solução encontrada para a falta de salada na merenda escolar, uma reclamação dos estudantes. “Separamos um local na escola para uma horta”, contou o diretor Paulo Rogério Ramos Leão.

E o que seria uma simples horta plantou sementes de cidadania na consciência dos estudantes. Como Tauan Silva, 16 anos, e Iuri Sampaio, 15, que começaram a tocar o projeto com colegas. “É legal tomar atitudes para melhorar nossas próprias vidas”, resumiu Tauan.

Mas o que pequenas ações, como criar uma horta na escola, têm a ver com corrupção? “O empoderamento das pessoas de mudar o seu mundo colabora na luta por torná-lo cada vez melhor”, destaca o promotor Paulo Quintela. O Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) estima que, em 2015, mais de 15 mil alunos participaram do programa.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Ela sentiu a corrupção na pele

As dores no joelho de Maria (nome fictício a pedido da vítima, que teme represálias) começaram em 2011. Naquele ano, ela rompeu os ligamentos e procurou um médico, que indicou uma cirurgia. Na ocasião, foi operada pelo ortopedista Henry Campos, no Hospital Home, em Brasília. O mesmo que, este ano, foi preso durante a primeira fase da Operação Mr. Hyde, da Polícia Civil e do MPDFT. Mesmo ciente de que teria algumas restrições após o procedimento, dada a gravidade da lesão, Maria não imaginava que o quadro só pioraria. As dores, segundo ela, aumentaram ao ponto de ela não conseguir mais andar normalmente.

Maria voltou ao médico algumas vezes. Pouco a pouco, Henry Campos parou de retornar aos contatos da paciente. Quatro anos depois da cirurgia, após uma viagem, ela rompeu novamente o ligamento do joelho e voltou ao hospital. Quando fez a ressonância, uma surpresa: “O ortopedista deveria ter colocado três parafusos no meu joelho, mas implantou apenas um. O parafuso ainda estava com a posição errada, com a cabeça voltada para a ponta do fêmur e para fora, o que acabou com minha cartilagem”, relatou.


A paciente fez nova cirurgia, precisou se afastar do trabalho e está há 1 ano e 4 meses de atestado. Tudo devido ao procedimento malsucedido. Ao lado de outros suspeitos de formar uma organização criminosa conhecida como Máfia das Próteses, Henry Campos é acusado de fraudar pacientes e planos de saúde, que passavam por cirurgias desnecessárias e com materiais de baixa qualidade para aumentar seu lucro. Maria foi mais uma entre centenas de pacientes que passaram pelas mãos do grupo.

Hoje, aos 27 anos, Maria ainda não consegue fazer atividades físicas, engordou 20 kg e foi diagnosticada com depressão. Foi vítima da corrupção dos integrantes da Máfia das Próteses, que buscavam maximizar o lucro à custa da saúde alheia.

Assim como Maria, milhares de brasileiros estão vulneráveis à corrupção, em suas mais variadas formas. À nossa e às próximas gerações cabe o compromisso de combater essa realidade. Resta saber em quanto tempo as iniciativas individuais e coletivas, como as citadas acima, conseguirão transformar os sucessivos escândalos do país em exceção, não em regra.

*Música de fundo (apenas na versão para desktops)
O primeiro samba gravado da história foi composto há 100 anos, em novembro de 1916. “Pelo telephone”, de Ernesto dos Santos — o Donga — e Mauro de Almeida. A versão original fala sobre o carnaval. Mas uma regravação da época caiu rapidamente no gosto popular. Os versos contam que um policial gostava de apostar na roleta, prática proibida, e chega a informar outra pessoa onde se pode encontrar um local para jogar. “O chefe da polícia, pelo telefone, mandou me avisar / Que na carioca tem uma roleta para se jogar”.

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