Kelly Almeida
Otto Valle


Em 2014, um ano antes da tragédia, Willian começou a trabalhar no
frigorífico de Coxim. Na época, recebia uma cesta básica, um pacote
de costelas e cerca de R$ 900 mensais como salário. Recém-saído da
atividade de jardinagem, ele “queria melhorar de situação”. Para
isso, passou a exercer outras tarefas dentro da empresa, chegou a
acumular três funções e fez 120 horas extras em um único mês.
“Parecia um zumbi. Era só frigorífico, casa. Casa, frigorífico. Não tinha tempo para nada. Eu dava o sangue, dava a vida ali”Além do cansaço físico e mental, pesava a condição dos equipamentos da empresa. Alguns estavam em situação precária e funcionavam na base da “gambiarra”, demandando atenção redobrada, segundo o jovem. Faltavam peças, material de proteção e máquinas mais novas. No dia do acidente, Willian trabalhava sozinho no setor. O jovem conta que estava colocando os restos de animais na máquina quando seu braço esquerdo ficou preso. “Só vi a hora que soltou. Acho que a pele rasgou. Então, fui desligar as máquinas e subir no RH para pedir ajuda”, relata. Como não havia equipe especializada para atendê-lo, ele precisou ser socorrido por colegas e foi levado ao hospital público da cidade. Willian considera um golpe de sorte o fato de o abate, que normalmente acaba às 12h, ter sido finalizado próximo das 16h, horário em que se acidentou. “Se tivesse terminado ao meio-dia, não haveria ninguém para me levar ao hospital. Eu ficaria esperando algum carro vir e ia morrer de hemorragia”, conta.
“Você nunca imagina o que vai acontecer. Quando se está cansado, fazendo muitas coisas, seu ritmo fica prejudicado e você não está mais atento a tudo”
Após passar quase um mês no hospital, encarar duas cirurgias e
perder 10 quilos durante o processo, novos traumas estavam por vir.
Quando voltou para casa, Willian teve de reaprender a fazer coisas
triviais e a lidar com a dor da rejeição da filha bebê, que não o
reconhecia mais. Mas encontrou forças para recomeçar. “Agora, parece
que nasci assim. Já me acostumei, não lembro de mim com os dois
braços. Faço quase tudo.” Sem trabalho atualmente, Willian luta para
conseguir uma prótese que o ajude a realizar atividades simples do
dia a dia. E agradece por ter a companhia da mulher, Valéria da
Silva, 22 anos; e das filhas Maikelly, 6, e Emannuele, 2.
“Nunca pensei que ia acontecer um acidente naquele lugar. Eu olhava e não via o perigo. E aí aconteceu isso comigo”
O trabalhador bateu às portas da Justiça em busca de reparação pelos
danos que sofreu. Teve de escutar da advogada da empresa, em uma
audiência, que era "apenas um dedo". Retrucou, enfático: “A senhora
abotoa a camisa sem usar o dedão? Ela falou aquilo porque não sabia
a dor que eu estava sentindo”. Hoje, Airton tenta lidar com o trauma
e, um ano após o episódio, espera que seu sofrimento seja amenizado.
“Não posso mais trabalhar como antes.” Ainda sem perspectivas, ele
toma remédios para pressão alta na tentativa de controlar a
ansiedade causada pelo trauma do acidente. Religioso, entregou seu
futuro “nas mãos de Deus”.
Ao sair de uma esteira, Henrique tentou pular um vão, mas o impulso
não foi suficiente e ele teve as botas puxadas para dentro da
máquina. Mesmo com a dor insuportável, manteve-se consciente
enquanto seus colegas desligavam o maquinário. Naquele momento,
achou que ficaria sem as duas pernas. O baque veio forte depois.
Luiz Henrique conta que, após ser levado para o hospital e ter a
perna amputada, entrou em coma. Quando acordou, estava engessado até
a altura da cintura e achou que estava sem as duas pernas. Em
desespero, precisou ser induzido ao coma para que o corpo se
recuperasse.
“Quando eu acordei pela segunda vez, sabia que ainda era a mesma pessoa, mas no corpo de outra”Após novas cirurgias e vários meses até que o processo de recuperação pudesse ser iniciado, Luiz Henrique recebeu forças da esposa e dos sete filhos.
“Perdi uns 70% da vida que eu tinha. Jogava bola, andava de bicicleta, corria, me divertia. Mas reaprendi a viver”A empresa custeou os cuidados médicos necessários e a prótese de Luiz Henrique. Hoje ele trabalha na portaria da JBS em Coxim. Com as feridas cicatrizadas, diz estar satisfeito: “Depois do meu acidente, a empresa passou a se preocupar mais com a segurança dos funcionários”.
“Eu precisava tirar os ossos de duas peças em menos de um minuto.
Eram 18 movimentos nesse intervalo. A esteira não podia passar com
outras peças sem que eu tivesse terminado as anteriores”, explicou,
enquanto fazia os gestos dos cortes com as mãos. Os incômodos no
corpo e as inúmeras idas ao posto médico fizeram o rapaz de 20 anos
ser transferido para outro local. Hoje ele integra a equipe de
limpeza e, mesmo afastado das máquinas, sofreu um acidente. “O
produto que usamos é muito forte e os óculos não fazem a vedação
total. Quando joguei o material para limpar, ele respingou e entrou
nos olhos.
Precisei de acompanhamento médico e de tratamento”, contou. Por
sorte, não houve sequelas. Carlos*, que recebe pouco mais de um
salário mínimo, encara jornada diária de 10 horas e não pensa em
deixar o emprego. “Não vou falar que estou muito feliz aqui, mas é a
oportunidade que tenho de conquistar alguma coisa na vida”, resume.
*Nome fictício a pedido do funcionário, que ainda trabalha no
local e teme sofrer represálias caso seja identificado

Cláudio Brandão ministro do TST
“É um setor cuja proteção tem que ser destacada como necessária e de modo contínuo”As demandas que mais chegam ao Tribunal Superior do Trabalho relacionadas a acidentes ou adoecimento em geral envolvem, por exemplo, a discussão sobre recuperação térmica — o direito ao intervalo para o corpo se acostumar a diferenças bruscas de temperatura. Ao lado disso, estão os problemas provocados por esforço repetitivo, as doenças ocupacionais. São lesões que variam desde o aparelho locomotor ao aparelho muscular. Ao que o senhor atribui o alto número de incidentes laborais nesse segmento? O acidente de trabalho não é algo atribuído ao acaso. As pessoas acham que o anjo da guarda estava descansando ou que Deus não as protegeu. Ao contrário. O acidente é algo presente, mapeado e previsto do ponto de vista do risco ambiental. Tanto que há os programas de saúde ocupacional que preveem as áreas de risco. Há empresas que não fornecem o equipamento necessário, mudam o processo produtivo e não capacitam os empregados ou substituem o maquinário e não os habilitam a lidar com o novo. São várias as razões e fatores que provocam os acidentes, que só são lembrados, muitas vezes, depois de acontecerem.
“É um processo de conscientização permanente. Todos somos responsáveis”Como o TST, instância máxima da Justiça Trabalhista, pode ajudar a mudar a realidade atual? O grande papel da Corte se revela nas ações coletivas, sobretudo ao julgar demandas que se baseiam na adoção de medidas de proteção preventiva. A importância do TST nesse tipo de contexto é determinar a adoção de medidas de proteção, a fim de que o acidente ou o adoecimento não venham a acontecer. Outro ponto importante é que, ao dar a palavra final, o tribunal vai estabilizando a interpretação e dizendo para a sociedade como ela deve se comportar. Ou seja, a Corte tem um viés pedagógico. Quando o TST diz que determinada conduta não é correta, as pessoas tendem, ou pelo menos devem tender, a ter um comportamento adequado a essa interpretação.
“O papel mais difícil, reconheço, é fixar multas ou indenizações. A vítima acha que a reparação é pequena e quem paga reclama da punição”
“O questionamento que devemos fazer é se a reforma deve ser da Previdência ou do processo produtivo. Hoje, a cada duas horas no Brasil, três pessoas morrem no local de trabalho. Não são acidentes, são assassinatos"
Para Bueno, uma das conquistas que a categoria teve nos últimos anos
foi a implantação da Norma Regulamentadora n° 36 (NR-36). Publicada
em abril de 2013 pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a regra
trata especificamente da segurança e da saúde de quem atua em abates
e no processamento de carnes e derivados. O problema é que as
determinações não são cumpridas.
“Não existe outro caminho senão o da fiscalização. Para as empresas, é mais fácil e barato substituir um funcionário. As companhias precisam ser responsabilizadas”
Leomar Daroncho diretor-geral do Ministério Público do Trabalho
“É preciso saber quanto a Previdência gastou com cada ‘doente de frigorífico’ de tal forma que a União possa ajuizar uma ação contra a empresa para que ela reponha o valor”Leomar Daroncho reconhece que a estrutura atual do órgão, com déficit de servidores, prejudica uma fiscalização mais combativa, mas reforça o empenho do Ministério Público do Trabalho em combater os abusos da indústria alimentícia no Brasil. “Fazer as inspeções é a maior dificuldade, pois nossa capacidade de trabalho está reduzida. Mesmo assim, atuamos com a intervenção e, quando necessário, por meio de ações judiciais. Não pode valer a pena descumprir a lei. As medidas precisam ser efetivas para que as empresas cumpram as normas.”
“Nos últimos cinco anos, a média anual foi de 710 mil acidentes: um a cada 33 segundos. Foram 15 mil incapacitações permanentes e 2,8 mil mortes. São números de países em guerra”A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro seja destinado para despesas com doenças e acidentes relacionados a atividades laborais. No universo de registros dessas ocorrências, o recorte relacionado ao setor frigorífico preocupa o auditor. Em 2015, Almeida realizou fiscalizações nas grandes empresas de Mato Grosso e verificou condições precárias.
“Vi casos de pessoas trabalhando 18 horas por dia, em temperaturas frias, alta umidade e realizando movimentos altamente repetitivos. É um setor muito complicado”Assim como no MPT, o efetivo de servidores no Ministério do Trabalho e Emprego é insuficiente. Segundo Almeida, o quadro de auditores e fiscais tem diminuído devido aos vários pedidos de aposentadoria e à ausência de concursos para reposição do efetivo.