Em estados historicamente sustentados pelo agronegócio, fábricas quebram paradigmas, transformam municípios e, com inovação e tecnologia, mostram que do centro do país pode sair muito mais do que grãos e carne
Kelly Almeida
Michael Melo/Metrópoles
Com o oitavo maior PIB industrial do Brasil (R$ 9,7 bilhões), o
Distrito Federal, região que respira política e serviço público, já
conta com 6,7 mil indústrias, com destaque para as micro e pequenas
empresas. Quem arregaça as mangas e atua no setor não tem do que
reclamar. De todas unidades da federação do Centro-Oeste, o DF é a que
paga melhor ao trabalhador, com um vencimento médio de R$ 2.588. Já o
município de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, chamou a atenção do
país nos últimos anos ao receber investimentos bilionários,
tornando-se um dos principais centros globais na fabricação de
celulose. Dois megaprojetos recentemente instalados na região, capazes
de produzir 3 milhões de toneladas do material por ano, transformaram
a realidade local ao promover uma verdadeira revolução industrial numa
economia historicamente baseada na pecuária.
Tânia Cardoso, da Blant: Nanotecnologia aplicada a cosméticos
A dona da marca, Tânia Cardoso, aposta na nanotecnologia no desenvolvimento de um dos produtos que se transformou no carro-chefe da empresa: o Nanovitaly, uma loção reparadora para unhas. O creme cosmético conta com cinco ativos encapsulados: arginina, óleo de melaleuca, queratina, lecitina e vitamina E, que ajudam a deixar as unhas mais fortes e saudáveis.
Solange Neves, sócia-diretora da Nutriex, e Leonardo Sousa Rezende, CEO Nutriex e Innovapharma: 25% de crescimento no primeiro trimestre
A Nutriex surgiu, como milhares de outras empresas iniciantes, de forma despretensiosa, comercializando produtos em revistas por meio de vendedoras que atendiam os clientes de “porta em porta”. Em 2009, porém, foi comprada pelos atuais donos que investiram em novas linhas de produtos, elevando a companhia a um outro patamar.
A sócia-diretora da Nutriex, Solange da Mata Neves, afirma que a empresa está na contramão da crise econômica vivida pelo país e diz que a marca vem crescendo acima da média da inflação. Somente no primeiro trimestre deste ano, a empresa apresentou uma alta de 25%, quando comparado ao mesmo período de 2015.
Estamos fora da curva. Enquanto o Brasil está demitindo, estamos contratando. Nos últimos seis meses, aumentamos nosso quadro em 30%. Isso é resultado de trabalho, pesquisas e desenvolvimento de novos produtos” Solange da Mata Neves, sócia-diretora da NutriexSobre o mercado do Centro-Oeste, a diretora reconhece que ainda há certo preconceito sobre a capacidade industrial da região, mas afirma que os empresários estão conseguindo desmistificar a visão de que só há agronegócio. “Quando apresentamos nossos produtos, as pessoas demonstram surpresa por conta do mercado daqui. Mas, nos últimos anos, com a vinda de muitas indústrias para o Goiás, o segmento está se destacando”, completa.
Fábrica da Plastibrás, em Mato Grosso: 200 toneladas de eletrodutos produzidas todos os meses
A ideia surgiu quando Adílson Valera, que é geólogo, trabalhava em fazendas do Mato Grosso fazendo poços artesianos. “Os agricultores tinham dificuldade de se desfazer das embalagens agrícolas, então percebi que era preciso dar uma destinação a esses produtos”, lembra.
A empresa começou com 20 funcionários. Hoje tem 120 - sendo 35 haitianos que buscavam emprego no Brasil - e funciona com a maior parte da produção automatizada. “As pessoas não colocam a mão nos eletrodutos. Nossa fábrica busca sempre equipamentos de ponta. Queremos mostrar a capacidade que temos em fornecer material de qualidade ao mundo todo”, conta Adilson. Pelo menos 200 toneladas são produzidas mensalmente. “Hoje, o maior desafio que enfrentamos é o da logística. Como o MT é pequeno, buscamos os materiais para reciclar em outros estados, como Mato Grosso do Sul e Rondônia”, explica o empresário.
Maquinário da Milan Móveis: Planos de exportação para a América do Sul
As fábricas da Fibria e da Eldorado (foto) produzem 3 milhões de toneladas de celuloso por ano
Inaugurada em dezembro de 2012, a Eldorado Brasil é a quinta maior produtora mundial de celulose de fibra curta, utilizada para a fabricação de guardanapos, absorventes, toalhas, rótulos e embalagens. O investimento para construção e início das operações foi grande, de R$ 6,2 bilhões, sendo R$ 4,5 bilhões na construção da fábrica. O restante foi destinado em logística e em composição das florestas próprias de eucalipto.
Com 4.850 funcionários, a companhia tem capacidade de produção de 1,7 milhão de toneladas de celulose por ano e exporta para o mundo inteiro, com destaque, no ano passado, para a Ásia, que recebeu 43% da produção, Europa (32%), América Latina (14%) e América do Norte (11%).
A unidade fechou 2015 com faturamento bruto de R$ 3,8 bilhões. Em 2015, a Eldorado anunciou ainda um investimento de R$ 9 bilhões para novas operações industriais que deverão dobrar a capacidade de produção durante o ano.
A Fibria anunciou um investimento de R$ 8,7 boilhões para ampliar a unidade de Três Lagoas
A unidade sul-mato-grossense da companhia foi primeira fábrica brasileira a atingir a marca de 1 milhão de toneladas de celulose produzidas em menos de um ano de funcionamento. Toda a produção é escoada por meio de transporte ferroviário até o Porto de Santos, em São Paulo, de onde é despachada por navio para o mercado internacional.
Em maio de 2015, a Fibria anunciou expansão na unidade de Três Lagoas. A cidade terá uma nova linha de produção de celulose responsável por mais 1,7 milhão de toneladas por ano. O investimento será de aproximadamente R$ 8,7 bilhões. As atividades estão previstas para iniciar no fim de 2017.
“A ampliação da unidade de Três Lagoas é um marco na história da empresa. É um grande investimento que irá gerar empregos, melhoria na qualidade de vida e desenvolvimento para o município", diz o presidente da companhia, Marcelo Castelli.
Ana Paula de Ávila e Silva, da Confraria: Do Cerrado para Ásia e Europa
Mineira formada em artes plásticas, ela começou a se aventurar no mundo da moda em 1998, quando aceitou o convite feito por uma amiga para produzir peças para venda. Desde então, não parou mais. De um modesto ateliê em Belo Horizonte, onde trabalhava com um funcionário, a artista plástica e empresária se mudou, dois anos depois, para Brasília. Atualmente conta com 12 empregados. Até o momento, já desenvolveu 2.532 modelos de bolsas, nos mais variados formatos e estilos.
Do desenho dos itens aos retoques finais, tudo passa pelas mãos de Ana Paula. A inspiração está em tudo que a mãe de quatro filhos vive diariamente. “Para apresentar as minhas coleções, participo do salão de modas em Belo Horizonte e em Paris”, conta.
Adauto Lourenço, da Biscoitos Diminas: Unidade com 80 funcionários abastece feiras de todo o país
Além de Planaltina, a Diminas tem uma unidade em Bela Vista de Goiás. Juntas, produzem 80 mil quilos de biscoitos todos os meses. No DF, 80 funcionários se dedicam diariamente ao processo de fabricação. A maioria deles mora ali mesmo, em Planaltina, e atua há mais de 10 anos dentro da fábrica.
Mesmo com a crise, a empresa dribla as dificuldades e se reinventa para não perder o cliente. “Uma das nossas estratégias foi diminuir as embalagens, para vendermos porções menores”, conta Adauto Júnior.
Sarah Saldanha, gerente de serviço de internacionalização da Confederação Nacional da Indústria (CNI), garante que micro e pequenas empresas são as que mais buscam apoio de olho nas oportunidades que esperam aqueles que cruzam as fronteiras do país. Cabe às federações da indústria de cada estado, no entanto, o papel de auxiliar na elaboração de planos de negócios para preparar as empresas no comércio exterior. “Esse processo de internacionalização é uma alternativa às marcas, ainda mais em um momento pontual como o que passamos com a crise econômica do país”, destaca Sarah.
Na avaliação de Sarah, é “fundamental que a empresa faça a tarefa de casa para conseguir romper as barreiras do mercado interno”. A afirmação diz respeito a mudanças que devem ser feitas para atender as exigências feitas para dar início ao processo de exportação e que, consequentemente, melhoram a imagem da marca nos novos mercados.
O processo de participação no mercado exterior tem efeito direto na inovação da empresa” Sarah Saldanha, gerente da CNI“Outro benefício, da porta para dentro, é que a empresa não fica refém das inconstâncias do mercado interno, estabelecendo relações comerciais fortes quando a maré estiver baixa por aqui”, ressalta a gerente. Os benefícios das exportações não são apenas das empresas. Segundo a CNI, a economia brasileira também ganha com as relações exteriores do comércio. “Os estudos demonstram que marcas que exportam são capazes de mobilizar mais empregos, agregar mais valores e trazer divisas por moedas estrangeiras para o Brasil”, comenta.
A Fibria exporta para 37 países e registrou um crescimento de 42% em 2014
O coordenador técnico da Fieg Wellington Vieira lembra que o estado passou por diferentes fases para conquistar destaque no mercado industrial. “Nos anos 1980 foi criado o Fomentar (Fundo de Participação e Fomento à Industrialização do Estado de Goiás), que ofereceu incentivos para que as empresas se instalassem aqui. Foi um tempo de muito progresso e preparo para o atual momento. Nos anos 2000 tivemos programas que impactaram no ICMS, mas que foram abatidos quando as empresas atingiam metas pré-fixadas, como a criação de empregos”, afirma Vieira.
Fibria/Divulgação
Antes de exportar, as companhias recebem consultorias de federações, além de entidades com o Sebrae, o Senai, centros internacionais de negócios e de outros institutos de apoio à indústria. “Trabalhamos muito com inovação e tecnologia para apoiar as empresas e ajudá-las a produzir com maios valor agregado”, afirma Vieira.
O representante da Federação afirma que a estrutura ainda não é a ideal, mas está em ascensão e, na opinião dele, Goiás será uma importante plataforma logística para o país. “Mais cedo ou mais tarde, a economia do Brasil vai cruzar no estado. Afinal, as principais rodovias que levam a todas as regiões passam por aqui”, assinala.
A expectativa é de que o PIB industrial do Mato Grosso do Sul chegue a R$ 18 bilhões neste ano
Economista da Fiems, Ezequiel Resende afirma que os índices começaram a apresentar destaque nos mercados nacional e internacional a partir da entrada das indústrias de celulose do município. “Já tínhamos representatividade com frigorífico, mineração e produção de grãos, mas o investimento delas (Fibria e Eldorado) aumentou a exportação. Teve ano que a cidade foi responsável por 70% da exportação de todo o estado”, lembra Resende.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior revelam a evolução da exportação de produtos industrializados no Mato Grosso do Sul nos últimos 15 anos. Em 2000, foram US$ 49 milhões. No ano passado, o número chegou a US$ 1,6 bilhão. “Ainda estamos em período de acelerada expansão. As indústrias de Três Lagoas anunciaram aumento na produção. Com essas atividades, o próximo quadriênio será de bom desempenho”, prevê Resende.