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Brasília é hoje um dos polos gastronômicos de referência no país. Há quem diga que só fica atrás de São Paulo e Rio de Janeiro. Isso significa que, com o crescimento da população, multiplicaram-se os restaurantes, bares, lanchonetes, docerias, mas não foi só nos números que o mercado cresceu.

Ao longo de 57 anos, o meio gastronômico da cidade acumula uma história formada por muitas outras pequenas histórias, de empreendedores, cozinheiros, chefs e apaixonados por cozinha que resolveram transformar essa paixão em negócio.

Há os que conseguiram se fixar como tradição, a exemplo  do Beirute (109 Sul), do Roma (511 Sul), da Pizza Dom Bosco, do Xique-Xique (estes dois na 107 Sul) e da Pastelaria Viçosa (Rodoviária do Plano Piloto). Mas foram muitos os que marcaram uma época e fecharam as portas.

Michael Melo/Metrópoles

Romero Veríssimo (filho) e Enildo Veríssimo (pai), da Pizzaria Dom Bosco: desde 1960

 

Memória afetiva
Lembrar os nomes dos antigos estabelecimentos da cidade é revolver a memória afetiva dos que viveram aqui nestas quase seis décadas. Na lembrança, ficaram desde a feijoada chique do Gaff (Gilberto Salomão) até os sanduíches do Janjão (102 Sul), do Gugu (104 Norte) e do Foods (110/111 Sul).

São sabores de uma época em que não havia ainda o glamour da cozinha autoral, e sequer sonhávamos com culinária molecular nem tampouco com o mundo gourmetizado de hoje. Quem atravessou essas décadas deve lembrar também destes nove endereços:

Reprodução FacebookAlice Brasserie
Alice Mesquita (foto acima) é figura importante na transição da gastronomia brasiliense para um tempo em que o nome do chef passou a ganhar importância. Especializada na cozinha regional francesa, começou em 1994, na Quituart. Em 1996 abriu o restaurante Alice em sua própria casa, no Lago Norte. Em 2007 foi para a QI 17 do Lago Sul, onde funcionou até 2012. Quem provou lembra até hoje de pratos como o robalo com manteiga clarificada e purê de banana-da-terra, o risoto de galinha d’angola e os carros-chefes da casa, o confit e o magret de pato.

  • O ponto onde funcionava o Alice, na QI 17, foi ocupado logo em seguida pelo Ares do Brasil, de Rodrigo Cabral, que fechou em 2014. Outro do Lago Sul: Cielo, na QI 9.

Cachopa
Este restaurante português funcionou por cerca de 20 anos, até 1987, na Galeria Nova Ouvidor, no Setor Comercial Sul. De acordo com Jovino Benevenuto, do Blog do Jovino, “era um restaurante fino, bem montado e, segundo os especialistas de plantão, lá, saboreava-se o melhor bacalhau da cidade” Jovino lembra que havia uma cantora “muito educadinha para os nossos padrões”, filha do português, dono do restaurante, que interpretava fados. O carro-chefe do menu era um prato chamado “cebolas ao bacalhau”. Fechou quando o português morreu e a filha não conseguiu prosseguir com o negócio.

  • Na Galeria Nova Ouvidor, no Setor Comercial Sul, ficava outro restaurante conhecido na mesma época, o Panela de Barro.

Kazebre 13
Nos anos 1960 e 1970, era um acontecimento ir com a família à pizzaria Kazebre 13 (foto em destaque), na 504 Sul. A casa era conduzida por dois italianos que serviam, entre outras delícias, uma pizza alho e óleo, sem muçarela, “a autêntica”. Além das famílias, o Kazebre era frequentado por famosos em visita à cidade e por políticos. Dizem que Tancredo Neves tinha cadeira cativa. Fernando Collor também circulava por lá. O luminoso com nome da casa (foto acima) ficou por muito tempo na fachada mesmo depois que o restaurante fechou, na segunda metade dos anos 1980.

  • Nas proximidades do Kazebre 13, na W3 Sul, também eram bem frequentados o bar Caravelle, nos idos dos anos 1960, e o Espanhol, que ficava na quadra  506.

Tarantella
Na década de 1970, era o restaurante predileto dos parlamentares da oposição. Nomes como Ulysses Guimarães, Luís Eduardo Magalhães e Tancredo Neves tinham lugar cativo. Mas o prestígio da clientela não impediu que o Tarantella fosse obrigado a mudar de nome, acusado de plágio. A partir dos anos 1980, atravessou a história como Piantella e manteve-se como reduto de políticos até os anos 1990. O Piantella chegou a ser fechado este ano, mas acabou reaberto no mesmo local, na 202 Sul.

  • Na mesma quadra, a 202 Sul, fez sucesso por breve tempo, em 1986/1987, o cubano Cuba Libre.

Arabeske
O bar e restaurante árabe era mais um complemento do que um concorrente de outro árabe, o Beirute, embora ficassem bem próximos, na 109 Sul, com cardápio parecido, em que se destacavam quibes, esfirras, kaftas… e cerveja. O burburinho também se igualava ao do famoso bar da ponta da 109. Foi entre as duas casas que, em 1970, uma multidão comemorou o resultado da Copa do Mundo de 1970. O Arabeske foi fechado em 1996 em decorrência de questões judiciais.

  • Na 109 Sul também marcou época o Estação 109, que permaneceu como alternativa ao Beirute por alguns anos depois de fechado o Arabeske.
Raquel Flores

Dragão
Durante os 33 anos em que esteve em atividade, este restaurante chinês era um dos endereços mais escolhidos para o almoço em família do brasiliense. Arroz colorido, chop shuey, frango xadrez chegavam à mesa em fartas porções para compartilhar. Era marcante também por resistir em uma localização, o subsolo do Setor de Diversões Sul. Fechou em outubro do ano passado, mas os proprietários são anunciaram o motivo. Foi mantida a filial no Brasília Shopping.

  • Ficava no Conic um dos primeiros — senão o primeiro — restaurante natural de Brasília, o Cheiro Verde, aberto em meados dos anos 1980 e que funcionou até o início dos anos 2000.

Rosental
Um ex-cozinheiro do ex-presidente JK, o seu Rosental, fez história com este restaurante na Vila Planalto, onde servia especialidades da cozinha mineira, como a popular costelinha de javali. Depois que o dono morreu, a casa passou a ser comandada pela simpática viúva, que costumava circular pelo salão conversando com os clientes. Funcionou até 2010.

  • Além do Rosental, outro restaurante que ajudou a Vila Planalto a ganhar a fama como área gastronômica foi o Cabana da Árvore. Ali por perto também teve Retiro do Pescador e I Maestri (ambos no Setor de Hotéis e Turismo Norte).

Zuu a.Z d.Z
A chef Mara Alcamin já tinha ganhado fama com o Universal, na 210 Sul, quando abriu este sofisticado restaurante na mesma quadra, em 2004. Tinha pé-direito alto, decoração aconchegante e investia no conceito de slow food. A casa teve sete anos de vida. Fechou em 2011, segundo Mara, porque ela cansou da correria de se dividir entre tantas casas — ela tinha também o Quitinete, na 209 Sul.

  • Outros restaurantes que funcionaram na mesma área do Zuu: Annone Veneto (212 Sul), Babel (215 Sul), Bar Madrid (408 Sul), Barcelona (206 Sul), Café Cassis (214 Sul e depois ParkShopping), Pizzaria Germana (314 Sul), Naan – Asian Fusion Cuisine (412), O Convento (EQS 208/209, Casa d’Itália).
Reprodução Zomato

Mouraria
O Mouraria foi aberto em 1989 e funcionou até janeiro de 2014, na 404 Sul — a Rua dos Restaurantes. Apesar de ser uma casa portuguesa, tinha cardápio mais amplo, com opções da cozinha mediterrânea. Mas a maioria dos frequentadores ia lá mesmo era para saborear as receitas clássicas de bacalhau, como Zé do Pipo, às natas e Gomes de Sá. Também fazia sucesso a truta com amêndoas.

  • Outros restaurantes que funcionaram na Rua dos Restaurantes e arredores: Adega do Frade (405 Sul), Le Français (404 Sul), Thai (405 Sul), À Capitu (403 Sul), Partenopea (402 Sul). E para não esquecer a Asa Norte: I Siciliani (109 Norte), Il Cantuccio di Giuseppe (302 Norte) e A Taberna do Infante (408 Norte).


 

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