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Brasília, apesar dos seus 56 anos, guarda tradições antigas dos seus precursores. A cultura popular do Nordeste permanece viva na capital do Brasil. Não dá para pensar na tradição do Distrito Federal e não se lembrar do Ponto de Cultura Invenção Brasileira que, este ano, completa 30 anos de existência. Encabeçado pelo mestre Chico Simões (foto no alto da página), espaço foi fundado em 1986, como Grupo de Teatro Mamulengo Presepada. Com o passar dos anos, integrando ações de um universo mais amplo, ganhou nova dinâmica, firmando sua sede no Mercado Sul (QSB 12/13) de Taguatinga.

Teatro, capoeira, música, dança. O Invenção, além de abarcar uma variedade de atividades, faz parte da raiz artística não apenas de Taguatinga como de toda a capital federal. A partir deste grupo surgiram e se fortaleceram diversos outros que mantém pulsante o cenário cultural local. Essas três décadas de vida será exposto no projeto Invenção Brasileira 30 Anos, que irá culminar no lançamento de um vídeo-documentário e de um livro sobre a trajetória do Invenção com lançamento previsto para novembro.

Mamulengo e hereditariedade
Contar a história do Invenção Brasileira é reviver os costumes de contar histórias e passar conhecimentos e vivências por meio da oralidade. Chico Simões nasceu no Núcleo Bandeirante e desde criança começou a se interessar por teatro de bonecos. “Eu vi uma apresentação de ventríloquo, um boneco manipulado por um homem e que conversava com a gente. Aí, quando eu fiz 20 anos, assisti um espetáculo de mamulengo do Carlinhos Babau e me apaixonei”, relembra Simões. Babau é um artista brasiliense que, na época, fundou com sua família a Cia. Carroça de Mamulengos, atuante no Brasil e no mundo.

Simões conviveu com Babau, viajando e assimilando a sua arte. Anos mais tarde, voltou à Brasília e montou o Mamulengo Presepada. “O mamulengo vem da commedia dell’art. Meu personagem principal é o vaqueiro Benedito, que tem uma relação com a Margarida, filha do coronel João Redondo. Eles são sertanejos que saem de suas cidades e vem morar na cidade grande”, conta.

Mamulengo, que vem da expressão “mão molenga” é um termo geral utilizado para nomear os bonecos populares do Nordeste na região Centro-Sul do país. São personagens fabricados de forma artesanal, geralmente em madeira e com tecidos bem rústicos que, para contar histórias, são manipulados com as mãos ou com o auxílio de varetas. De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o DF abriga cerca de oito grupos de mamulengo, deixando Brasília entre os principais polos da arte no Brasil, considerada a cidade com o maior número de mamulengueiros fora do Nordeste do país.

Chico Simões é considerado um dos principais responsáveis pela disseminação desta tradição no DF. “Eu cresci ouvindo as pessoas dizerem que não gostavam de Taguatinga. Todo mundo queria voltar para a sua cidade natal. Era necessário fazer cultura, é o que dá identidade”, relembra Simões. Foi assim que ouve o fortalecimento de movimentos artísticos locais.

Professor Chico Simões
Quando o grupo cresceu e incorporou dezenas de atividades artísticas diferentes, o Mamulengo Prezepada passou a ser o Ponto de Cultura Invenção Brasileira, que até hoje abre suas portas para a comunidade. Com a proposta de difundir a cultura popular, as atividades realizadas no espaço sempre envolvem a participação da comunidade oferecendo oficinas e cursos de teatro, circo, danças e ritmos folclóricos, percussão, apresentações artísticas e mostra de filmes.

Segunda é dia de oficina de Cavalo Marinho; terça e quinta acontece a capoeira; quarta, curso do instrumento de percussão carron; sexta o workshop é de mamulengos e, sábado, o grupo feminino As Batuqueiras, ensaiam maracatu, coco de roda e outros ritmos nacionais. “O local é aberto para as pessoas utilizarem, tem computador, livros e os coletivos ocupam e abrem espaço para novos projetos. Somos uma família ”, destaca Simões.

Reprodução/Facebook

Josias Wanzerller, fundador do Grupo Mamulengo Alegria, de Taguatinga

 

A partir da atuação do Invenção Brasileira surgiram no Distrito Federal diversos grupos artísticos diferentes que continuam em expansão no decorrer das gerações. Josias Wanzerller começou no ofício quando assistiu a uma oficina na faculdade Dulcina de Morais. “O professor era o Chico Simões e nós ficamos muito amigos na faculdade, gostei da linguagem do mamulengo. A partir daquele momento, eu fui beber na fonte, fui visitar o Nordeste e aprendi muito com os grandes mestres”, conta Josias.

Outro bonequeiro, Robson Siqueira, se tornou mamulengueiro quando participava de ações do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e viu uma apresentação de Chico Simões em um assentamento. Robson é originário da região administrativa do Gama e fundador do grupo de bonecos Pilombetagem. Ele conta que apesar do mamulengo ser uma expressão bastante antiga, ela precisa ser reinventada sempre, acompanhando o momento atual.

O Invenção Brasileira também é responsável pela revitalização do Mercado Sul, local onde vários artistas ocupam lojas geminadas montando um verdadeiro nicho cultural na cidade sustentado pela economia solidária. O vídeo-documentário para celebrar os 30 anos inclui uma extensa pesquisa histórica, seus desdobramentos e parcerias. Uma trajetória que perpassa a própria história política, cultural, econômica e social da cidade de Taguatinga e de Brasília.

 

 

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