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A obra do encenador Gabriel Villela se constrói com tijolos de erudição e reboco de cultura popular. Aos 58 anos e 42 peças profissionais, o mineiro de Carmo do Rio Claro tornou-se um dos principais artistas do teatro brasileiro quando decidiu trocar o arado pela máquina de costura – imagem criada por ele mesmo para revelar sua passagem do campo para São Paulo, onde estudou arquitetura e direção cênica.

Assim, ao longo dessa trajetória, adquiriu um enorme conhecimento intelectual, sem jamais abandonar as ricas tradições do povo mais simples. Desse caldo de contradições, formou-se um artista barroco, que sabe como poucos equilibrar a tensão entre o gosto pela materialidade opulenta e as demandas de uma vida espiritual.

“O universo cristão das abadias e dos claustros, bem como o jogo de contrastes da estética barroca e o encanto inocente do circo-teatro, permeiam sua vida e obra de forma, no mínimo, deslumbrantemente estetizante”, escreve o jornalista e dramaturgo Dib Carneiro Neto na introdução de “Imaginai! – O Teatro de Gabriel Villela”, volume que traz detalhes de todos os espetáculos do encenador, comentados um a um por ele mesmo.

Editado pela Edições Sesc, o livro – organizado por Dib e pelo ator e professor de teatro Rodrigo Audi – será lançado na quinta-feira (13/7), em São José do Rio Preto, durante o FIT (Festival Internacional de Teatro).

Histórico
Desde a estreia profissional, em 1989, com “Você Vai Ver o Que Vai Ver”, até a mais recente peça a entrar no livro (“Rainha do Orinoco”, 2016), Villela mergulhou no universo de Nelson Rodrigues (A “Falecida”, “Vestido de Noiva” e agora prepara “Boca de Ouro”), Shakespeare (“Romeu e Julieta”, ainda hoje um de seus maiores sucessos, “Sonhos de Uma Noite de Verão”, “Sua Incelença”, “Ricardo III”, “Macbeth”, “A Tempestade”) e Chico Buarque (“Ópera do Malandro”, “Os Saltimbancos”, “Gota d’Água”), entre outros.

Mas, embora sejam textos inúmeras vezes montados, tornaram-se todos especiais graças à gramática própria e à sintaxe pessoal do encenador, criador de figurinos deslumbrantes que, aliados a trilhas sonoras que vão do samba a ladainhas, transformam cada espetáculo em uma viagem sensorial para o espectador.

“Fazer teatro é como fazer sexo com cada um dos atores”, comenta Villela. “É sempre uma libido, uma causa sexual misturada, uma causa literária, cênica, energias que você não programa e que são liberadas.” Embora nunca tivesse uma companhia própria, ele é sempre associado a diversos grupos com os quais trabalhou.

“Teatro é uma arte coletiva, envolve uma cidade, como bem diz Fernanda Montenegro. E, como a arte teatral envolve libido, paixão, existe uma escrita nesse livro que Dib e Rodrigo não deixaram passar em branco – na aparência, o texto tem um equilíbrio, uma calma, mas é, na verdade, barroco, com ‘anjos escorrendo pelas paredes’, como dizia Nelson Rodrigues.”

Registros
Foi um trabalho meticuloso, amoroso, de quem conhece bem uma obra tão vasta como os campos de Minas: enquanto Dib recolheu impressões de Villela sobre todos os seus espetáculos, Audi pesquisou e selecionou as imagens que registraram essa trajetória. Duas tarefas de extrema importância, uma vez que o teatro, por ser efêmero, sobrevive apenas na lembrança de quem viu. “O uso da fotografia se justifica por ser a arte que mais poderá aproximar o leitor do impacto que a obra de Gabriel Villela provoca no público”, conta Audi.

Em seus depoimentos, o encenador não apenas revela detalhes sobre as montagens como aproveita a distância do tempo para também refletir sobre o próprio trabalho. Villela considera, por exemplo, que Replay é sua peça com mais liberdade de improviso, da mesma forma que questiona hoje a própria direção em espetáculos como Gota d’Água e Vestido de Noiva.

“A distância temporal ajuda, mas as motivações são dadas pelo momento em que você está vivendo”, explica. “Enquanto preparava Gota d’Água, em 2001, eu exercia a função de diretor artístico do TBC e ficava no escritório quando deveria ficar junto dos atores. Não pude estar no ensaio como queria.”

Em Vestido de Noiva, de 2009, Villela acreditava que o teatro brasileiro já atingira uma sofisticação a ponto de não precisar colocar os três planos cênicos, previstos por Nelson Rodrigues. “Quando fui montar dentro de um espaço pequeno, senti falta da materialidade dos três planos. Tive de inventar máscaras para levar o público de uma região e colocá-lo em um campo mítico. O teatro do Nelson é mitológico – ele coloca os personagens num questionamento mítico, o mito do eterno retorno, da morte, ou o mito do Boca de Ouro em se transformar em rei, em imperador asteca, e ter tudo em ouro.”

Villela monta Boca de Ouro em agosto e o cenário será uma gafieira e os personagens, um cordão carnavalesco de época, com Dalva de Oliveira como cantora. “Em Nelson, o melodrama pulsa por baixo, o quiproquó, o desenlace até o arremate com música.” Uma edição atualizada do livro logo se tornará urgente.

 

 

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gabriel villela
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