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Para Joycianne Gleyce, 10 anos, a realidade, por mais dura que seja, é apenas mais um obstáculo a ser vencido. Moradora de um humilde casebre na Estrutural, a menina, desde os 5 anos, encasquetou: seria dançarina. A mãe, Ana Paula Peixoto, 33 anos, via a filha dar piruetas pela casa quando, após ajustes nas contas, conseguiu pagar uma escola de balé no Sesc Taguatinga.

O esforço é grande – a mensalidade de R$ 39 pesa nos bolsos da família e o trajeto de 40 minutos de ônibus cansa –, mas o sacrifício não foi em vão. Após três meses de treinamento, Joycianne passou em uma seletiva em Luziânia (GO) e tornou-se uma das 200 meninas brasileiras que disputarão a etapa final do “vestibular” para entrar na Escola de Bolshoi, localizada em Joinville (SC).

“É o sonho da vida dela, por isso é que eu me esforço tanto para isso dar certo. É o caminho de um futuro melhor.”"
Ana Paula Peixoto, dona de casa

A ideia de levar a menina para o teste em Luziânia (GO), coincidentemente a cidade em que Joycianne nasceu, veio de sua professora de balé no SESC, Cristiana Peixoto. “Eu percebi que ela não via a dança apenas como uma brincadeira, sendo uma das minhas alunas mais dedicadas”, avalia.

“Nas aulas, trabalhamos alongamento, barra e toda a técnica do balé. Desde o início, ficou muito claro que ela tinha um bom biotipo, com pernas fortes e corpo bem flexível”, explica. A jovem continuará indo duas vezes por semana às aulas, às terças e quintas, das 10h às 11h, mas o ritmo será intensificado por conta do processo seletivo.

Vida difícil
A Estrutural abriga o maior Lixão da América Latina e, de acordo com dados da Codeplan, é a segunda região administrativa mais pobre do Distrito Federal. Essa dura realidade ecoa na família da futura bailarina. A mãe, Ana Paula, trabalha como dona de casa, cuida de Joycianne e dos outros três filhos.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

A dura realidade da família não impede a realização de sonhos

Toda a renda da família vem do salário de vigilante do pai, Marcelo da Silva, que trabalha de dia no Lixão e, pela noite, em um banco. A dura realidade fica estampada na casa: um sobrado feito em madeirite. A moradia é provisória. No mesmo terreno, começa a ser levantada as estruturas de um casebre em alvenaria. A falta de dinheiro é compensada pela dedicação dos pais, orgulhosos de conseguirem fornecer educação aos filhos. Os quatro frequentam a escola e praticam atividades esportivas.

Ana Paula e Marcelo, agora, tentam levantar os recursos para pagar a ida de Joycianne à Joinville. A segunda etapa da seleção ocorrerá entre 20 e 22 de outubro. Sendo aprovada, a menina torna-se aluna definitiva do Bolshoi, recebendo bolsa de estudos e benefícios como material e alimentação.

Em sites de passagens, o trajeto para um adulto e uma criança até a cidade de Joinville sai, em média, por R$ 1,5 mil. O valor é alto para família, que também terá de arcar com despesas de hospedagem e alimentação. Junto ao Sesc, eles tentam algum apoio financeiro.O restante deve vir da solidariedade.

Ana Paula pensa em criar uma vaquinha para juntar o dinheiro. Ela ainda não sabe como vai organizar o processo, se será on-line ou por meio de uma rifa. A única certeza é que todas as alternativas para ajudar Joycianne a sair da miséria pela dança serão tentadas. Doações, aliás, são muito bem-vindas.

A escola de Joinville funciona desde 2000 e é a única unidade da prestigiada instituição fora da Rússia. Lá ensina-se a técnica de balé, de acordo com a metodologia Vaganova, e dança contemporânea. O espaço também conta com a presença de alunos e professores de outros países.

 

 

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