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Um dos maiores clássicos da música brasileira nasceu no seio da Universidade de Brasília (UnB), em 1974 ou 1975, no auge da ditadura militar, durante uma masterclass do filósofo cearense, Augusto Pontes. Então uma espécie de guru daquela geração de novos artistas do Ceará, o intelectual começou a aula se apresentando de forma ousada e até irresponsável para aqueles densos anos de chumbo.

Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares."
Augusto Pontes

Um dos presentes ao evento, Fagner riu tão alto que os olhos de todos no recinto viraram para o autor de “Ave Nortuna”. Belchior, outro convidado do encontro, também gostou da provocação do amigo conterrâneo, porém, mais comedido nas reações, esperou algum tempo para demonstrar o impacto que a frase audaciosa teve nas pessoas e em si mesmo.

“Eu sou apenas um rapaz latino-americano/Sem dinheiro no banco/Sem parentes importantes/E vindo do interior”, canta o artista na faixa de abertura de seu disco mais famoso e importante, “Alucinação”, um marco da MPB lançado em 1976.

Essa é apenas uma das várias histórias deliciosas resgatadas pelo jornalista Jotabê Medeiros em “Belchior – Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, narrativa que conta a trajetória de um dos maiores ídolos da nossa música, falecido no último mês de abril, aos 70 anos. O convite para escrever o livro sobre o influente e enigmático artista deixou o autor com a pulga atrás da orelha. Primeiro, porque o gênero biográfico não está entre os preferidos do jornalista.

“Segundo, porque quase todos os perfis biográficos que eu gostaria de fazer já foram feitos: Roberto Carlos, Zé Ramalho, Gilberto Gil, Luiz Gonzaga, Geraldo Vandré. A ideia de perfilar Belchior veio na cadência de uma vida nova, o cheiro de uma nova estação, dois novos filhos em casa, um novo gato, uma nova rotina de trabalho”, revela Jotabê, na apresentação do livro lançado pela Editora Todavia.

Escrito como se fosse uma grande reportagem, “Belchior – Apenas Um Rapaz Latino-Americano” foge um pouco das biografias convencionais. Isso porque, especialista em música, crítico respeitado com passagens por jornais como “Folha de S. Paulo” e “Estadão”, Jotabê – atualmente editor de cultura da revista “Carta Capital” –, burila suas pesquisas e entrevistas realizadas, com densa análise da obra de Belchior e sua relevância no cenário musical.

“Foi fascinante notar que sua influência, apesar dos dez anos sumido e dos 24 anos sem inéditas, era mais forte entre os jovens do que entre os velhuscos. Youtubers lindas postavam canções e tuiteiros sisudos postavam versos do poeta cearense, como se íntimos fossem desde o berço”, observa o autor. “Conforme a pesquisa evoluía, notei que Belchior se cristalizava perante os meus olhos como um mito moderno, cheio de mistérios e também de trivialidade, poesia e intriga, tragédia e romance. Era um personagem tão intrigante quanto sua música, e o momento em que as duas coisas se cruzam cria fascínio”, complementa.

Entre a batina e o violão
Dividido em 16 capítulos, alguns intitulados com trechos dos sucessos arrebatadores do artista, o livro traz à baila detalhes da trajetória de Belchior que grande parte dos fãs só conhece de passagem ou nem isso. É o caso, por exemplo, dos pormenores da infância em Sobral, ao lado de mais de 20 irmãos, ou os tempos de disciplina monástica na serra de Guaramiranga, no mosteiro dos Capuchinhos, ostentando o título de frei Sobral.

“A vida monástica atraiu o inquieto frei Sobral pela abrangência de seu debate intelectual. Era também a chance de obter uma condição social privilegiada para os jovens sertanejos de origem mais humilde, pois os capuchinhos desfrutavam de grande prestígio social e político”, narra Jotabê.

A desistência da vida religiosa, os tempos de estudante de medicina em Fortaleza e a inclinação para a música, mesmo ciente de sua inabilidade para tocar violão e jeito singular de cantar, são registrados com informações preciosas e momentos curiosos, alguns engraçados. Um deles, quando, depois de ganhar zero de um professor implicado com seu estilo hippie, na faculdade, um irado Belchior esbravejou, após amassar a prova:

– Eu não preciso disso! Anote o meu nome, veja o meu rosto! O senhor ainda vai ouvir muito falar de mim -, vaticinou.

Um dos pontos altos do livro é quando o autor conta como uma birosca de beira-mar, próxima à Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal de Ceará, na praia de Mucuripe, o “Bar do Anísio”, se tornou point de jovens artistas que viriam a ser o núcleo duro do “Pessoal do Ceará” no Sul Maravilha, nos anos 70. Além de Belchior, faziam parte da turma, Fagner, Ednardo, — autor do sucesso, “Pavão Misterioso” –, Fausto Nilo, Jorge Mello, Rodger Rogério e Téti. Ali, Belchior e Fagner rascunhariam um dos clássicos da MPB interpretado, entre outros, pelo rei Roberto Carlos, “Mucuripe”.

Os bastidores das rusgas entre Belchior e Fagner, uma inimizade que afastaria os dois amigos até os últimos dias do autor de “Como Nossos Pais”, as dificuldades antes de emplacar dois clássicos na voz da maior cantora do país, Elis Regina, e as histórias e personagens por trás dos maiores sucessos do artista cearense, como o famoso “analista amigo meu”, estão entre os petiscos do livro. Com enfoque mais jornalístico, Jotabê, que chegou a viajar para o Sul do país em busca do paradeiro de Belchior, narra o périplo do artista em seus últimos anos de vida.

Um capítulo à parte tem sabor suculento para os amantes da música. É quando o autor traça paralelo oportuno entre Belchior e um de seus maiores ídolos, o bardo Bob Dylan, ambos, vozes geracionais de seu tempo. “Os dois têm voz anasalada e fazem canções com versos quilométricos e escassa melodia. (…) A sintonia é apontada em nove de cada dez resenhas da obra do cearense”, constata o autor.

“Belchior – Apenas Um Rapaz Latino-Americano”
Autor: Jotabê Medeiros. Editora Todavia. R$ 37,90

 

 

 

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