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Mineira de Paraopeba, Clara Nunes entrou para a história da MPB como a “maior cantora de samba” do Brasil. No entanto, foi mais longe. Era intérprete plural, digna do apelido “Guerreira”. A artista rompeu barreiras na indústria fonográfica brasileira ao se tornar a primeira mulher a bater recordes de vendas num setor dominado por barbudos.

“Ela quebrou o tabu de que mulher não vendia disco”, agradece a eterna Alcione, em depoimento à série inédita do Canal Brasil, “Clara”. Isso porque, pegando carona no estrondoso sucesso da artista na EMI-Odeon, a Philips, temendo perder o bonde andando, não pensou duas vezes em contratar a cantora maranhense.

Baseado na biografia do jornalista e escritor Vagner Fernandes, “Clara Nunes, Guerreira da Utopia”, o programa, dividido em cinco capítulos, no Canal Brasil e exibido na íntegra no Globosat Play, conta de forma convencional a trajetória da cantora por meio de textos, fotografias e entrevistas com nomes importantes da nossa música.

“Meu objetivo é marcar uma fase na MPB, lançando novos compositores e cantando músicas do nosso povo. Para no dia em que morrer, ser lembrada com saudades”, disse certa vez a artista, que completaria no próximo mês de agosto, 75 anos.

Estudiosa da cultura afro-brasileira
Filha de pai violeiro que animava Folias de Reis no interior de Minas, Clara Nunes abraçou a carreira de cantora na adolescência. Quando chegou ao Rio de Janeiro, em meados dos anos 1960, para tentar a sorte, a jovem cantora já era uma artista de renome em Belo Horizonte, cuja voz podia ser ouvida em rádios e emissoras de televisão da região.

Na Cidade Maravilhosa, arriscou de tudo antes de alcançar a fama definitivamente. Foi dos boleros românticos ao iê, iê, iê da turma da Jovem Guarda, participando de quatro edições dos acalorados festivais universitários. Uma foto da época é emblemática, na qual a cantora de sorriso largo aparece abraçada ao vencedor do 2º Festival Universitário da Música Brasileira, Gonzaguinha. Também era vista aos beijos e abraços com Agnaldo Rayol em fotonovelas.

Reprodução

 

A guinada na carreira aconteceria em 1971, sob a batuta do produtor musical Aldezon Alves, que a cercou de canções que resgatava a sonoridade afro-brasileira como “Aruandê Aruandá” e “Ê Baiana”. Era o início da fase dos marcantes vestidos brancos, turbantes vistosos e cabelos crespos."

Clara Nunes resgataria no auge da carreira os grandes nomes do samba ao gravar composições que se tornariam grandes sucessos do gênero, destaques para “O Mar Serenou”, “Conto de Areia” e “Portela na Avenida”, que exaltava a escola do seu coração.

Pesquisadora das raízes da música popular brasileira, dos seus ritmos contagiantes e rico folclore, Clara Nunes popularizou os cantos e danças afro-brasileiras presentes na umbanda e candomblé.

Sucesso na África com canções como “Morena de Angola”, de Chico Buarque, a artista também conquistaria o mercado japonês, onde chegou a fazer alguns shows antes de morrer, prematuramente, em 1983, aos 40 anos, após uma desastrosa cirurgia de varizes.

 

 

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