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Em outubro de 1985, com o arrasador álbum de estreia lançado, a Legião Urbana foi convidada pela Rede Globo a participar de um especial infantil. Vestidos de vikings, os roqueiros de Brasília entraram em cena tocando “A Canção do Senhor da Guerra”. A faixa, no entanto, tinha sido encomendada a Raul Seixas, mas não vingou.

Esse é um dos casos retratados no livro “Discobiografia Legionária“, de Chris Fuscaldo. A obra revisita bastidores das gravações dos oito discos da Legião Urbana.

Chris Fuscaldo foi a responsável por escrever os encartes dos álbuns a convite da gravadora, que relançou a obra da banda brasiliense em 2010. Esse foi o ponto de partida para o livro, que foi acrescido de novas entrevistas e pesquisas.

Arte/Metrópoles

 

No estúdio

“Discobiografia” é um trabalho sobre a rotina de gravação dos artistas nos estúdios, de como a relação musical entre Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá aparece nos discos. É uma obra diferente de outras publicações, como “Trovador Solitário”, de Arthur Dapieve, e “Renato Russo – O Filho da Revolução”, de Carlos Marcelo, além, claro, da biografia de Dado, “Memórias de Um Legionário”.

A autora revela, por exemplo, que Renato Russo era um músico democrático, sempre disposto a ouvir os colegas. “Sem Dado e Bonfá ele não teria feito metade da obra da Legião Urbana”, constata, em entrevista ao Metrópoles.

“Discobiografia” traz detalhes curiosos dos bastidores das gravações dos dois discos solos de Renato Russo – “The Stonewall Celebration Concert” e “Equilíbrio Distante” -, e do trabalho de resgate das pérolas “do baú do Renato” feito pela gravadora EMI e a família do cantor.

Metrópoles Toda vez que um projeto envolve o nome “Legião Urbana” as negociações são tensas. Você teve algum tipo de dificuldade com a família do Renato, por exemplo?
Chris Fiscaldo – Nenhuma dificuldade. O projeto começou em 2008, quando fui convidada pela gravadora EMI Music a preparar textos para serem encartados nos discos de carreira da Legião Urbana que seriam relançados em 2010. Naquela época, a família do Renato, Dado e Bonfá estavam de acordo e acompanharam o processo. Quando decidi transformar os textos em livro, incluindo os discos ao vivo, as coletâneas e os projetos solo de Renato Russo, a editora LeYa entrou em contato com o escritório de Giuliano Manfredini, que não se opôs. Na realidade, nem precisaríamos fazer isso, porque desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou as biografias, acabou a necessidade de se pedir autorização.

Você fez novas apurações e entrevistas em cima dos textos que escreveu para EMI em 2010. Como foi o processo de pesquisa?
Como se trata de uma “discobiografia”, ou seja, da biografia dos discos, eu comecei a pesquisa pela audição acompanhada da leitura atenta dos encartes. Dali, além de uma tentativa de entendimento sobre as canções, seus arranjos, a unidade de cada disco, fui pescando nomes das pessoas que participaram do processo de produção de cada um deles. Ao mesmo tempo, busquei jornais, revistas e programas de rádio e de TV antigos para ler e ouvir entrevistas dos integrantes da banda na época do lançamento de cada álbum. Iniciei, então, uma bateria de entrevistas.

As músicas nasciam da química entre Renato, Dado e Bonfá no estúdio?
Certíssimo! E é errado dizer que Renato fazia tudo sozinho, que era o dono da banda, que era o único talento ali, como ouvi muitas vezes. Ele era um gênio, mas sem os outros não teria feito metade da obra da Legião Urbana. Dado e Bonfá tinham talento e, muitas vezes, faziam com que músicas engasgadas na garganta do Renato fluíssem e virassem verdadeiras obras-primas. O Renato só conseguia trabalhar dividindo tarefas, pedindo opinião dos parceiros e decidindo tudo junto com eles.

Depois de escrever esse livro, como você avalia a importância da EMI no processo de criação da banda? Se fosse outra gravadora eles teriam o mesmo sucesso ou desempenho?
Difícil responder isso hoje, porque os tempos eram outros. Naquela época, a gravadora tinha dinheiro e estrutura para apostar numa banda nova. A EMI-Odeon deixava o estúdio disponível, com técnico e produtor dentro, para o trio trabalhar em seus discos. E não importava o tempo que os músicos passassem lá dentro. Hoje, isso é inimaginável. Mas, tento me arriscar a responder a pergunta… Se fosse outra gravadora, eles até poderiam ter essa mesma estrutura à disposição, mas teriam que ter também um diretor artístico como Jorge Davidson, que foi quem abraçou a causa Legião Urbana.

Afinal de contas, “A canção do senhor da guerra” nasceu de uma encomenda frustrada feita ao Raul Seixas? Por isso o Renato escreveu essa música para o especial da Globo?
Essa é uma das histórias mal resolvidas do livro. A única pessoa que poderia me responder isso, o produtor Guto Graça Mello, não conseguiu lembrar nem se foi ele quem produziu a trilha sonora da série “A era dos Halley”. E também não tem nenhum outro registro de Raul Seixas falando sobre isso a não ser um vídeo perdido no YouTube que não dá data nem explicação.

 

 

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